Uma viagem pela Galáxia – Deserto do Atacama

Deserto do Atacama

O Deserto do Atacama é tão surpreendente e diferente que cheguei a acreditar que lugar como esse, não existisse no nosso planeta.

Eu não estava tão errada nos meus devaneios. A primeira parada foi no Valle de Marte ou Valle de la Muerte. O primeiro nome vem exatamente da similaridade com Marte. Quando assisti o filme: Perdidos em Marte, cheguei a desconfiar mesmo que algumas cenas haviam sido gravadas por lá.

Embora as cores terrosas das montanhas de areia sejam as mesmas, as texturas se misturam. Areia e pedra, reconhecemos pelas suas pontas afiadas e cobertas de sal, que se não estivéssemos em um deserto eu diria que era neve.

Meus olhos não conseguiam enxergar começo, meio e fim daquilo tudo. Não só os meus, mas o de todos os seres humanos que olham o local sob a mesma ótica (com os pés no chão). Foi na tentativa de atravessar essas terras e sem muito sucesso, que homens e animais foram encontrados mortos no local. Assim dando o seu segundo nome: Valle de la Muerte.

Com o nosso 4×4 e a inocência de um turista desavisado, a areia quase nos engoliu e deixou sua mensagem logo de cara: Cautela! No deserto não se brinca.

Deserto do Atacama
Valle de Marte – Deserto do Atacama

Exploramos aquelas terras com os nossos próprios pés e não fomos muito longe, era apenas o começo da nossa viagem.

Como a velocidade da luz, em poucos minutos já estávamos no Valle del la Luna.

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A lua, nesse caso se encontra à 9 km de San Pedro do Atacama e está dentro de uma reserva natural. Pagamos a taxa para entrar com o carro e no mesmo momento tive a impressão de ter perdido o senso da gravidade. A cabeça batia no teto a cada nova “cratera” ou seriam as pedras do caminho? Pode ser, mas não nos impediram de continuar o passeio!

Olhamos o mapa e encontramos as 3 Marias, seguimos para lá. Ainda não era noite e o que estava diante dos nossos olhos não eram as estrelas e sim três formações rochosas: uma ao lado da outra. São elas que dão brilho para o vale, esculpidas pelo vento e dando as mais diversas formas que você pode imaginar. É exatamente isso que deve fazer, imaginar.

Deserto do Atacama
Valle del la Luna – Deserto do Atacama

Sou uma verdadeira aficionionada por assistir pôr do sol, seja pela janela de casa ou em qualquer lugar deste planeta. No Atacama não poderia ser diferente, lá com certeza está entre os mais belos do mundo.

Se estar na Lua é estar nas alturas, era exatamente pra lá que iríamos. Marchei para o topo de uma montanha de pedra levando comigo: meu marido, pai, mãe e uma garrafa de vinho. Iríamos assistir a um espetáculo, regado a vinho chileno em copos de plástico. Taças de vidros seriam um peso a mais para carregar.

Deserto do Atacama
Valle del la Luna – Deserto do Atacama

Me senti no topo do universo. O sol foi dando espaço à noite e suas cores transformaram o cenário que estava salpicado pelo sal. O branco que de dia contrasta com a cor terrosa, no fim do dia serve de pano de fundo para as centenas de tonalidades de amarelo, laranja, vermelho e até mesmo o rosa darem o seu show.

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O dia se foi e nos deixou no escuro. Com uma lanterna voltamos para o carro. O silêncio só comprovou uma coisa: aquele pôr do sol foi mesmo indescritível.

Um novo dia nascia em San Pedro, o sol não queimava, era o mês de Maio e portanto, não sofremos com o calor escaldante.

Um novo dia, um novo destino! GPS conectado, carro na estrada seguimos sentido as Lagunas Altiplânicas

Foram cerca de duas horas para chegar até o destino final, horas que nem senti passar. Deslizando sobre um tapete, sem dobras e sem curvas a única preocupação era olhar pela janela.

Pela janela, uma vegetação morta que hora ou outra ganhava vida e cor. O verde das árvores anunciavam a presença de água e não demorava muito para surgir  pequenos lagos que deixavam o passeio misterioso, da onde eles vieram? Ao chegar na reserva que protege as lagoas, descobrimos que aqueles se formaram em decorrência da erupção dos vulcões: Miscanti e Miniqui. Já as outras que passamos pelo caminho, continuam sendo uma incógnita.

Deserto do Atacama
A caminho das Laguna Altiplânicas -Deserto do Atacama

Os vulcões deram nome para as duas lagoas que se formaram ali. Estávamos a 4.000m acima do nível do mar e a recomendação era para conter os ânimos, não poderíamos nos cansar mais do que o normal.   

Eu tentei, até avistar a primeira, a Miscanti. A sua água calma refletia um morro coberto de neve, não era sal dessa vez, era neve de verdade. Completamente envolvida por tufos amarelos, de longe pareciam florzinhas inofensivas, de perto a certeza que estávamos em um deserto: eram cactos.

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Laguna Miscanti – Deserto do Atacama

A cor da água parecia ser reflexo do céu, um azul que me fez entender o porquê do sentimento de tranquilidade nos estudos da psicologia das cores.

Caminhando lentamente sentido a segunda lagoa, Miniqui. Como um ctrl+c, ctrl+v e uns ajustes no tamanho, ambas só podem ser comparadas entre elas e nem pergunte qual eu gostei mais.

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Laguna Miniqui – Deserto do Atacama

Avançamos a nossa exploração das lagoas locais e seguimos em busca da famosa e divertida Laguna Cejar, aquela que é impossível afundar.

O que impede você de afundar é a alta concentração de sal na água, tão grande que chega a ser maior que a do mar morto. A concentração ali é de 70%, enquanto no mar morto é de 6%.

O que é salgado por lá é o valor da experiência, cerca de R$ 100,00. O valor alto é em decorrência da grande movimentação de turistas e locais que utilizam o espaço para se refrescar. O excesso de gente estava danificando o espaço.

A natureza é mesmo perfeita. Como se fosse uma proteção para a lagoa, é completamente envolvida por um terreno agressivo. O solo completamente coberto pelo sal, formam verdadeiras navalhas. Portanto atenção e cuidado para não cortar os pés.

Ojos de Sal, foram as últimas lagoas do dia. Ao longo da estrada, areia para todos os lados. Algumas poucas árvores secas e o sal, sempre. Seguindo as marcas da estrada como se fossemos donos dela avistamos dois grandes buracos que pareciam ter água dentro, que coisa de outro planeta. Olhos de sal, como são carinhosamente conhecidos. A estrada passa exatamente entre os dois.

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Estacionamos em qualquer lugar, sem preocupação com o guarda de trânsito. Saímos do carro como se fossemos astronautas saindo da nave espacial. Olhamos, olhamos e olhamos, era um poço sem fundo. Talvez se eu pulasse iria passar para a próxima camada da Terra, certeza. Não pulei, mas dizem que por ali a água é doce, resultado das erosões das águas dos rios subterrâneos que passam por lá.

A cor escura da água e o verde da pouca vegetação que rodeia toda a margem se contrastam. São os únicos indício de vida naquela natureza morta. A terra que dá forma para o curioso poço se duplica no reflexo da água. Tudo que se aproxima da borda, se multiplica.

Deserto do Atacama
Ojos de Sal – Deserto do Atacama

Foi um dia e tanto, surpresos com tanta beleza e o espanto da grandiosidade da mãe natureza retornamos para o vilarejo de San Pedro do Atacama. Precisava descansar a mente, que passou um dia inteiro absorvendo imagens jamais vistas por essa turista que vos fala.

O dia começou cedo, antes mesmo do sol dar as caras já estávamos na estrada.Eram 5:30 da manhã, o show dos Gêiser começaria por volta das 7:00. A escuridão da madrugada e a neblina sinalizavam que lá fora estava frio, dentro do carro o aquecedor ligado e meu coração disparado. Subimos a uma altitude de 4.200m que foram alcançados com o corpo todo contraído de medo: do percurso, que cada vez ia ficando mais alto, uma estrada de terra, sem segurança alguma. Sabíamos que o caminho estava correto, pois estávamos em uma fila de carros que corriam o mesmo risco que nós.

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Talvez uma diferença: a maioria faz esse passeio com agências locais. Vão dormindo ao longo do caminho por confiar nos motoristas que conhecem aquele percurso como a palma da mão. Não era o nosso caso, carro alugado, primeira vez naquela estrada escura e talvez com um pouco de sono pelo horário.

Chegamos ao local, as excursões montavam a mesa do café e nós tentávamos nos esquentar no ar quente do carro. O dia começou a nascer, eu só implorava para o sol aparecer logo e esquentar um pouco. Sai do carro, com os dentes batendo, era hora de assistir ao show das águas calientes. Diferente do que acontece em Las Vegas e em Dubai, aqui não tem a mão do homem, a criação é toda responsabilidade da natureza.

Um Gêiser é uma nascente termal (a água atinge 70ºC). De tempos em tempos entra em erupção, lançando uma coluna de água quente e vapor para o ar. Por volta das 7:00 da manhã os jatos atingem sua altura máxima. Um fenômeno razoavelmente raro, cerca de mil em todo o mundo.

Depois de tanto frio, as águas termais aguardam os lunáticos que querem dar um tibum nas piscinas naturais que atingem os 40ºC, se não fosse os 2ºC que estão do lado de fora, tudo certo!

Deserto do Atacama
Gêiser- Deserto do Atacama

Voltamos para San Pedro em busca do Valle Arcoiris. Não seguimos a luz do pote de ouro, seguimos uma estrada que por uma hora percorremos quilômetros sozinhos, longe dos humanos e mais uma vez próximos da natureza. As alpacas que apareciam no meio do caminho foram as nossas companhias, tão próximas da estrada era inevitável não parar, fotografar e bater um papo com as primas das ovelhas.  

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Alpacas – Deserto do Atacama

A cor terracotta invadiu o vale, se o planeta Mercúrio não fosse cinza eu diria que tínhamos chegado lá. O motorista conduzia o carro lentamente,  no desnível do caminho encontramos pedras, vegetação e riachos, passamos por todos eles com a sensação de estar em um trator. O entusiasmo de encontrar o pote de ouro se deu ao começar vislumbrar resquícios de cores entra aquela imensidão do vermelho queimado. O arco-íris estava nascendo, as montanhas estavam coloridas, camadas de cores, como um bolo mesclado. Camadas de verde, camadas de amarelo, branco e roxo esse era o Valle Arcoiris, inteirinho para nós.

Mais uma vez, largamos o carro em qualquer canto e fomos explorar aquele mundo. Exploramos tanto até achar fendas que abriam as rochas e nos levavam cada vez mais para uma outra dimensão. Daqui em diante, só vendo para acreditar…

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Valle Arcoiris – Deserto do Atacama

Pegamos a estrada Del Paciencia, o nome já diz tudo. Muita estrada pela frente com uma paisagem sempre igual, terra e nada de vegetação. Se estiver nervoso, grite. =D  Encontramos as Lagunas Escondidas.

Nada mais que lagoas de sal, sete no total, apenas algumas são autorizadas para banho. Um local menos explorado por turistas, os que não tem paciência não chegam. O valor bem mais barato que a Cejar.

Exploramos tudo que estava ao nosso alcance, lagoas pequenas e grandes com as mais diversas tonalidade de azul e verde. Ao olhar para a água, não sabia se as nuvens é que estavam sendo refletidas ou se a água escondia uma espécie de “iceberg” de sal.

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Como não é possível afundar, ninguém sabe ao certo a profundidade, mas os olhos notam as camadas. Terra mais uma vez salpicada com sal, a terra coberta por uma fina camada de água te mostra que até ali você consegue ir caminhando, o verde domina todo o buraco mostrando que ali já não é mais possível encostar os pés em qualquer superfície.

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Lagunas Escondidas – Deserto do Atacama

Sem muita paciência, sem muito tempo precisávamos voar na velocidade da luz para chegar a tempo de assistir o pôr-do-sol na Laguna Chaxa. Deu tempo e ali presenciei o mais belo espetáculo da minha vida.

O olhos já haviam acostumados com as lagoas, mas aqui elas estavam decoradas com os flamingos, que como bailarinas trançavam suas pernas eretas e seu corpo inclinado, buscando alimento dentro da água salgada. As cores rosa e branca das suas penas logo logo iriam se tornar apenas contornos, que se contrapõem com a potência do amarelo anunciando que o sol está indo embora. Elas, as nossas bailarinas, continuavam lá, como se nada estivesse acontecendo (devem estar acostumada com esse show). Não se mexiam, apenas levantavam a cabeça da água e logo pescavam um peixinho novamente.

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Laguna Chaxa – Deserto do Atacama

Enquanto isso, atrás delas, o céu se transformava em um algo novo a cada piscada. Ao abrir os olhos diante de mim, tão pequena, o mundo estava laranja. Fechava e abria e lá estava o vermelho, mais uma vez e agora o rosa e assim foi… Até que as nuvens resolveram virar as protagonistas, aos poucos  foram encobrindo as cores fortes e trazendo a escuridão do anoitecer.

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Hora de voltar, mas o céu ainda tinha muito para nos oferecer naquela noite. Já havíamos assistindo o show da estrela que brilha ao longo do dia, o sol. Agora era o momento de assistir o espetáculo daquelas que se destacam na escuridão.

Com muita roupa e muito bem agasalhados, seguimos para o nosso passeio noturno. No meio do deserto, sem influência alguma de iluminação artificial, as estrelas e a lua brilhavam para nós.

Sob um frio congelante, escutamos todas as explicações das constelações, dos zodíacos, nebulosas, estrelas e planetas.

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Passeio noturno para ver as estrelas – Deserto do Atacama

Vi as verdadeiras 3 Marias, com um pouco de imaginação encontrei meu signo: Capricórnio, que com um laser muito forte traçava o contorno de todos os zodíacos.

Com um olho bem aberto e praticamente enfiado no poderoso telescópio, fechei o outro, e vi os anéis de Saturno e as crateras da lua. Sem malícia e nem dor, eu estava vendo estrelas de uma maneira nunca vista antes.

Pra mim, a prova de que somos pequenos, não sabemos de nada e que viajar é a melhor maneira de descobrir não só o planeta terra mas o universo. Assim terminou a minha viagem espacial com os pés bem presos à terra pelo Atacama.

2 comments

  1. Mayte, sou apaixonada no Atacama, mas ainda não conheci esse paraíso. Tá tudo marcado e se der certo vou em setembro, então ansiedade me define no momento. Eu fiquei com umas duvidas no teu relato: você fez os passeios sem guia, foi isso? Alugou o carro e fez tudo por conta? Quão difícil é isso? Nunca tinha imaginado fazer assim porque achava que seria tudo muito mais difícil (ou impossível). E em termos de custo, quanto de diferença você imagina entre fazer com aluguel de carro (que não deve ser nada barato por lá também) e fazer com as empresas?
    Um beijo

    1. Olá Klécia, o Atacama é apaixonante mesmo!

      Isso mesmo. Exceto o passeio astronômico (que só é possível fechado com agência).

      Eu aluguei o carro no próprio aeroporto de Calama (é mais barato que locar na cidade de San Pedro). Para conseguir realizar todos os passeios é necessário alugar um 4×4 e ter em mãos todos os mapas (offline), não é nada impossível e nem muito complicado, todos os locais são muito bem sinalizados e possível chegar sem guia. Com relação ao custo não é o mais barato, achei pela Hertz com os valores mais atualizados um valor de R$ 300,00 o dia (se você está em 4 pessoas dentro do carro vale mais a pena) os passeio custam em torno de 50 dólares (dependendo da agência e do passeio). O que me deixou muito confortável com a ideia da locação do carro foi a liberdade de parar e de curtir no meu tempo cada um dos passeios.

      Recomendo apenas UM passeio fazer com guia – Gêiser (fomos tbm de carro e por conta própria e passamos bastante medo)

      PS: Caso feche com as agências, se atente se o valor cobrado não é só do translado e chegando no local terá que pagar para entrar ou nadar nas lagoas de sal e etc…

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