A história de Sófia através dos seus templos religiosos – Bulgária

Sófia - Bulgária

Em Sófia, não importa a sua religião, todos se respeitam! Foi um grande aprendizado andar pelos centros religiosos da cidade. Cada um com a sua característica e sua crença, um templo ao lado do outro, todos respeitando o espaço do próximo.

São muitos anos de história, por lá já passaram os trácios, romanos do Império Bizantino, os turcos otomanos e os russos comunistas. Devido a essa mistura de povos, a cidade abriga inúmeros centros religiosos de diferentes credos.

Construída no Império Romano, hoje a igreja em funcionamento mais antiga da Europa que e a construção mais antiga de Sófia, Sveti Georgi(Igreja St. Jorge), foi o início do nosso passeio. Sua construção é da época do Imperador Constantino, o Grande, o qual promulgou o cristianismo como uma religião permitida no Império Romano. Sófia (na época Serdica) foi uma das maiores e mais importantes cidades romanas na Península Balcânica (sudeste europeu)

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Sveti Georgi – Sófia – Bulgária

De 1512 a 1520, a igreja foi transformada em uma mesquita pelos turcos otomanos que cobriram todas as pinturas do templo com gesso. Foi só em 1915 que St. Jorge passou por uma transformação voltando aos seus primórdios. Teve o seu minarete (torres que anunciam a hora da reza) destruído. Suas paredes foram limpas e suas pinturas medievais voltaram a aparecer. O local voltou a ser uma igreja ortodoxa. Inclusive, todos os dias são realizados os cantos litúrgica na antiga linguagem dos eslavos ortodoxos.

As pinturas contam a história da religião cristã. Os traços mais grossos e as poucas variedades de cores dificultam compreender uma arte valiosa como esta, mas o que sabemos é que lá estão estampados vários profetas.

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Pela sua importância histórica, o governo da Bulgária resolveu proteger o prédio envolvendo-a com outras construções governamentais e até mesmo um hotel. Um pouco escondida, recomendo que siga as coordenadas do GPS ou de algum mapa. 😉

A Catedral de Sveta Nedelya é uma igreja ortodoxa. Herdeiras da cristandade do Império Bizantino. É considerada a segunda maior instituição religiosa do mundo, atrás da Igreja Católica Romana, concentradas sobretudo nos países da Europa Oriental.

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Catedral de Sveta Nedelya – Sófia – Bulgária

A Catedral datada do séc. X, já enfrentou uma série de confrontos. Entre terremotos e bombardeios na tentativa de matar o Rei no ano de 1915, o templo foi fechado. Passou por restaurações até que sua última reinauguração foi em 1933, como se mantém até hoje.

Vista de fora, não imaginamos o que nos aguarda lá dentro. As cúpulas verdes e a construção de pedra até chamam a atenção, mas ao entrar é uma verdadeira surpresa. Fato que eu esperava algo mais próximo das igrejas católicas. Apesar dos pequenos traços do catolicismo,  são representados pelas pinturas sacras, você logo compreende que está em um ambiente diferente. Essa é uma das diferenças da igreja ortodoxa para a igreja católica, a ortodoxa não tem estátuas de santos, apenas pinturas. Verdadeiras obras de artes que decoram todas as paredes desse templo.

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Catedral de Sveta Nedelya – Sófia – Bulgária

Sveta Nedelya conta com um enorme candelabro central, mais detalhado, está todo envolvido por ouro e por imagens sagradas.

As diferenças entre as duas igrejas (ortodoxa e católica) são inúmeras. A mais significativa é que a ortodoxa não reconhece o papa como autoridade máxima, quem recebe essa responsabilidade são os patriarcas.

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Em 1382, Sófia foi conquistada pelo Império Otomano (turcos), transformando-se em uma cidade Oriental, motivo das mesquitas que lá estão e tantos banhos turcos.

A Mesquita Banya Bashi é considerada uma das mais antigas mesquitas da Europa. É a única que segue aberta ao culto islâmico na cidade. São 10.000 fiéis desta religião na cidade e o templo comporta 700 pessoas.

Uma mesquita é um santuário com equilíbrio estético e técnico, de elegância refinada. Pronto, isso define muito bem Banya Bashi.

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Mesquita Banya Bashi – Sófia – Bulgária

Se de longe quem chama a atenção é a cúpula do templo, internamente não é diferente. A parte interna da cúpula está toda desenhada, com traços finos em azul e vermelho os arabescos provam que menos é mais. A elegância refinada está lá, na cúpula, nos arcos e também nas pinturas que definem as formas das janelas.

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Mesquita Banya Bashi – Sófia – Bulgária

Sem sapatos e em silêncio, dei toda a volta na sala redonda e me dirigi ao centro. Inclinei a cabeça e lá estava um enorme lustre dando todo o equilíbrio estético que define esse tipo de centro religioso.

A torre pontuda do lado de fora é conhecida como minarete, tem a função de realizar o chamado para a reza. Dizem que em Sófia, esse chamado acontece 5 vezes ao dia, mas eu não escutei nenhuma.

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Mesquita Banya Bashi – Sófia – Bulgária

No anos 1492, durante a Inquisição Espanhola os judeus, que viviam na Península Ibérica fugiram para diversos países europeus. Um grande grupo dessa comunidade foi se abrigar na Bulgária. Denominados como judeus sefarditas, são os responsáveis pela construção da Sinagoga de Sófia

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Sinagoga de Sófia – Sófia – Bulgária

Na época do holocausto, o Rei Bóris III se recusou a participar do lado dos alemães e entregar seus judeus para autoridades nazistas. Salvando 50.000 vidas.

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Hoje, a Sinagoga Central de Sófia é descrita como o orgulho de todos os judeus da Bulgária.

Externamente as cores das pedras e tijolos, chamam a atenção. A entrada é feita por um pequeno portão na lateral do templo. Portão esse que estava fechado, mas logo um simpático porteiro nos deu as boas-vindas, abrindo caminho para um jardim que nos conduziria até a porta principal.

Impossível não entrar e já olhar para cima, mais um candelabro, mas desta vez de bronze. Ocupa boa parte daquela sala octagonal. que reserva um detalhe para cada um dos seus 8 cantos. Assim como o candelabro, os azulejos foram importados de Viena, que foi a referência (Sinagoga Sefardi de Viena) para a construção desse prédio no ano de 1905.    

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Sinagoga de Sófia – Sófia – Bulgária

O colorido interno esconde a tristeza que esse povo um dia teve que aceitar calado. A iluminação e a brincadeira com as formas arredondadas e pontudas, para mim, pouco conhecedora dos estilos arquitetônicos, passou um sentimento de leveza.

Além da sinagoga, o espaço também possui um museu. Infelizmente fechado no dia da minha visita.

Os quatros templos religiosos mencionados anteriormente – Sinagoga de Sófia, Mesquita Banya Bashi, Catedral de Sveta Nedelya, Igreja Sveti Georgi – fazem parte da quadra da tolerância, como é conhecida região. Os centros estão localizados todos um muito próximo ao outro, o fato de serem de religiões diferentes não interferem em nada o respeito com o próximo.

Já um pouco mais afastada das anteriores, a Igreja San Nicolas ou Igreja Russa, foi construída em 1912 pela embaixada russa para representar tal comunidade que morava na capital búlgara.

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Igreja San Nicolas – Sófia – Bulgária

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O seu estilo neo-russo, claramente inspirado nas igrejas russas, são quatro cúpulas menores e uma mais alta. Todas cobertas de ouro que contrastam com o verde do telhado. Dão forma para a igreja russa, que foi a que eu mais gostei externamente.

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Igreja San Nicolas – Sófia – Bulgária

Sem custo para conhecer e também proibido tirar foto, fizemos uma passagem relâmpago já que estava acontecendo um batizado e o pequeno espaço praticamente não permitia familiares e turistas lá dentro. Como sinal de respeito, saímos rapidamente. Mas também, as pinturas que sempre são as estrelas de um templo religioso estão praticamente apagadas pela fumaça das velas.

Ainda em 1912, foi finalizada a Catedral de Alexander Nevski de Sofía. Construída para homenagear o imperador Alexander II da Rússia, também conhecido como “O Libertador”. Foi ele em 1878 quem ajudou a liberar a Bulgária dos cincos séculos sob o domínio otomano. Financiada por completo com o dinheiro da população, foi uma forma de agradecimento para com Alexandre Nevski.

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Catedral de Alexander Nevski de Sofía – Sófia – Bulgária

Alexander também foi uma figura chave na história medieval russa pela sua defesa do Cristianismo Ortodoxo, frente aos ataques católicos. Por tudo isso, sua figura é venerada como um santo em todo o mundo de igrejas ortodoxas.

A Catedral é uma das maiores igrejas ortodoxas do mundo.

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Catedral de Alexander Nevski de Sofía – Sófia – Bulgária

Externamente, ela é o cartão postal da cidade de Sófia, mas a sua beleza está escondida lá dentro. Toda revestida de mármore proveniente de Munique, o espaço brinca com as diferentes tonalidades da pedra. Gigante e imponente Catedral, diante de nós, nos transforma em seres pequenos naquele pé direito altíssimo. O mármore se mistura com as pinturas sacras que rodeiam todo o salão principal e também com os mosaicos que foram enviados de Veneza.

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Sobre a nossa cabeça, um universo de pinturas bem definidas, os lustre que carregam inúmeras velas para iluminar um pouco daquele espaço escuro. Os lustres que também foram importados de Munique, não são tão expressivos como o dos templos anteriores, pela composição dos 3,  se tornam o grande destaque do local.

No altar, uma caixa de vidro que exibe relíquias do Alexandre Nevsky, o homenageado. Doada pela igreja Ortodoxa Russa, sugere ser um pedaço de sua costela.

Não se paga para entrar na principal igreja da cidade, porém para tirar foto deve-se pagar uma pequena taxa de 2 euros.

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Catedral de Alexander Nevski de Sofía – Sófia – Bulgária

Continuando a história, já em 1944, a Rússia ocupou todo o território búlgaro. Os comunistas tomaram todas as esferas de poder, com o apoio dos exércitos de ocupação. O governo ditatorial encerrou-se em 1990 e a Bulgária se tornou membro da União Europeia em 2007.

Permita-se andar e conhecer cada um desses templos. Permita-se viajar nessa história, do país e principalmente de cada religião. Muitas vezes, precisamos compreender melhor os fatos para respeitar o próximo. Claro, que na verdade os fatos não são importantes, pois todos deveriam ser respeitados, mas no fundo é isso que acontece. Mudei muito meus conceitos após essa viagem e torço para que o mundo seja uma verdadeira quadra da tolerância.

Fontes:

http://www.svgeorgi-rotonda.com/

http://www.sofia-guide.com/

http://bulgariatravel.org/en/official_tourism_portal/

 

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