Intercâmbio após os 30

Para a nossa série #Partiu de hoje, convidamos a Elaine para nos contar um pouco mais sobre como é e quais foram os desafios de fazer um intercâmbio após os 30 anos!  Nossa amiga deixou esse detalhe de lado e encarou o desafio duas vezes, com 32 anos se jogou no mundo e encarou a sala de aula na Nova Zelândia, com 35 embarcou para Malta em busca de mais desafios e crescimento profissional.

Por: Elaine Martinelli

Blue Lagoon - Malta

Fazer um intercâmbio para aprender inglês sempre esteve em minha lista de “coisas a fazer” porém, para mim essa oportunidade só apareceu após os 30 anos. Em 2013 resolvi pedir uma licença do trabalho e passar 3 meses na Nova Zelândia, naquela ocasião estava com 32 anos e a escolha do país foi basicamente porque tinha uma grande amiga brasileira vivendo lá e ficaria hospedada na casa dela. Isso me deu muita segurança já que eu não falava praticamente nada em inglês e nunca havia vivido em outro país. Foi então que comprei a passagem, escolhi a escola, fiz as malas e fui!

Quando aterrisei em Auckland lá estava minha amiga, me esperando no aeroporto e pronta pra me amparar durantes os próximos 3 meses porém, eu teria que aprender a viver naquela cidade, em um país muito diferente do Brasil, teria que ir sozinha à escola, fazer novas amizades e descobrir maneiras para me divertir, além de aprender inglês é claro.

O primeiro dia de aula foi realmente difícil, por vezes pensei que nunca entenderia o que as pessoas ali falavam e isso me tirava da minha zona de conforto, o que geralmente não nos faz sentir bem. Precisava me adaptar ao fato de não ter um trabalho, viveria uma vida unicamente de estudante, muito difícil pra quem havia começado a trabalhar aos 17 anos e nunca mais havia parado. Confesso que as duas primeiras semanas foram desesperadoras pra mim mas como tudo na vida, havia também o lado bom de estar ali e foi nisso que foquei para seguir adiante.

Maori Experience - Nova Zelândia

Aos poucos passei a entender boa parte do que a professora falava e comecei a fazer amigos na escola. Aqui o maior desafio era o fato de que a maioria das pessoas que fazem intercâmbio tem no máximo vinte e poucos anos e às vezes era difícil alinhar as vontades e expectativas deles e minhas. A melhor forma de fazer isso foi viajando pelo país pois viajar é algo que todos os intercambistas querem fazer, independente da idade. Com a ajuda de uma agência de viagens local me incluí em um grupo de jovens que estava indo para o norte da Nova Zelândia em um feriado prolongado e a partir daí passei a viajar com alguns deles em outras oportunidades. Nessa altura também já havia me enturmado com o pessoal da escola e quando a aula terminava sempre íamos a algum lugar para comer, beber e bater papo.

A Nova Zelândia é um país incrível, tem praias e montanhas de tirar o fôlego, não é à toa que muitos filmes foram gravados por lá, como O Senhor dos Anéis, Os Hobbits e Crônicas de Nárnia. Dentre as coisas que me chamavam muito a atenção estava a segurança do país, infelizmente muito diferente do Brasil, a amabilidade dos kiwis (nome como são chamadas as pessoas que nascem por lá) sempre muito dispostos a ajudar os estrangeiros que se aventuravam em seu país e o fato de lá existirem mais ovelhas do que gente. Acreditem, são 10 ovelhas por habitante! É tanta ovelha que o governo chegou a cogitar em criar um imposto por flatulência animal, que é responsável por mais da metade dos gases que provocam efeito estufa no país. Descobri também que por lá o rugby é um esporte tão importante quanto é o futebol para nós brasileiros, o All Blacks é o mais importante time de rugby do mundo e todos ali são realmente apaixonados pelo time que é um orgulho nacional, inúmeras vezes Campeão Mundial e famoso pela apresentação da Haka, Dança de Guerra da Cultura Maori.

Nova Zelândia

Durante os três meses que estive por lá aprendi muito, fiz grandes amigos com quem tenho contato até hoje, viajei por todos os cantos e me encantei com a beleza de cada lugar. Por vezes pensei que se ainda estivesse na faixa dos vinte e poucos anos ou se tivesse me apaixonado loucamente por algum kiwi me aventuraria em ficar lá por mais tempo porém, tinha meu trabalho e muitas coisas pra conquistar aqui no Brasil e voltar era ainda a melhor opção. Fiz uma última viagem pelo sul do país, saltei de paraquedas, andei de helicóptero, vi neve, geleiras, fui à Christchurch, uma cidade que havia sido devastada por um terremoto dois anos antes e estava sendo reconstruída com a ajuda de muitos estrangeiros que optaram por morar lá. Depois dessas descobertas voltei ao Brasil com a sensação de que tinha sim vivido tudo que imaginei e muitas coisas que nem haviam passado pela minha cabeça.

Sky diving - Nova Zelândia

Três anos após essa experiência incrível, arrumei as malas de novo para me aventurar em um novo intercâmbio, dessa vez duraria apenas 1 mês e seria em Malta, uma pequena ilha no Mar Mediterrâneo próxima ao sul da Itália. A essa altura já tinha 35 anos e havia escolhido um país do qual não conhecia absolutamente ninguém e pouco sabia da cultura local. Decidi ficar hospedada no alojamento da própria escola e dividir o apartamento com outros estudantes pois, isso me obrigaria a interagir em inglês o tempo todo.

Os primeiros dias na escola já não foram um desafio com relação ao inglês, a essa altura eu já havia melhorado significativamente mas, os desafios relacionados a fazer amigos e a necessidade de ser aceita nos grupos eram exatamente os mesmos da minha experiência anterior. A impressão que tive foi que em Malta os estudantes eram ainda mais novos que os da Nova Zelândia quando na verdade era eu quem estava 3 anos mais velha. Confesso que no início tive uma certa preguiça de me enturmar pois eu não estava ali para ir a baladas todos os dias. Fiz alguns passeios sozinha e acabei conhecendo algumas pessoas que viviam em Malta e não apenas os estudantes.

Azure Window - Malta

Em Malta existem duas línguas oficiais, Maltês e Inglês, além do Italiano que é muito falado por lá devido a proximidade dos países e a grande quantidade de italianos que vivem em Malta. O país possui uma arquitetura medieval e muitos lugares ainda nos remetem aos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando aconteceu o Grande Cerco de Malta e o país foi uma das áreas mais bombardeadas do Mundo. Com o passar dos dias é claro que fiz amizades na escola, japoneses, alemães, turcos, franceses e muitos brasileiros também estavam se aventurando por lá. Conhecemos diversos pontos turísticos juntos, vimos praias de um azul incrível, templos, igrejas, fomos a pubs e festas. Como era interessante entender um pouco da cultura de cada pessoa ali e saber o que cada um almejava ao voltar para seu país. Os anseios e desafios eram diferentes entre nós mas o objetivo era um só, fazer com que aqueles dias nos possibilitassem a evoluir como seres humanos.

Valletta - Malta

Malta não foi um lugar que consegui me imaginar morando por anos, achei o país pequeno e tranquilo demais para mim, mas certamente foi um dos lugares mais lindos que estive e guardarei essa experiência e os amigos que fiz no coração.

Minha conclusão sobre essas experiências é de que, independente da idade, temos sempre que agarrar as oportunidades quando as mesmas aparecem. No primeiro memento pode ser um choque mas, com o passar dos dias percebemos que todos os estudantes, abaixo ou acima dos 30, querem mesmo é se aventurar nesse mundo, conhecer novos lugares, culturas, pessoas.

Coromandel - Nova Zelândia

Ao final de um intercâmbio posso dizer que nem sempre ficamos fluentes na língua que fomos estudar mas essa experiência nos faz crescer, aprender a lidar com situações inusitadas, abre a mente para outras culturas. Entendemos que não existe um único jeito certo para se viver, cada país tem sua particularidade mas no fundo somos todos seres humanos buscando a felicidade e lutando pela nossa própria evolução.

Leia também a experiência do Walmir, que foi fazer intercâmbio após os 50 😉  Clique aqui.

Deixe uma resposta