Doar-se para aprender! Como é fazer trabalho voluntário em Moçambique.

É tão bonito ver as pessoas que se doam para o trabalho voluntário, ainda mais quando a pessoa vai além da ajuda financeira. Não julgo de maneira alguma, pois eu mesma já fiz isso várias vezes. A questão financeira é tão importante quanto doar tempo e conhecimento, mas a atitude da Raquel me comoveu! Ela foi até Moçambique para aprender com as crianças, engana-se que pensa que trabalho voluntário é para ensinar!

Raquel, o Passaporte com Pimenta não só agradece a sua linda atitude, como também agradece você a dividir essa experiência com a gente – Muito Obrigada!

Por: Raquel Castro

Desde muito jovem tenho verdadeira paixão por pessoas e suas diferentes formas de viver e significar o mundo, o que me levou à graduação de Psicologia e ao encantamento de mergulhar na existência do outro.

Participei de diversos trabalhos voluntários desde pequena e sempre valorizei doar-se para aprender, então surgiu a ideia de fazer uma viagem para conhecer novas realidades e aprender novas experiencias.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

A decisão foi rápida, assim como todo o processo para a viagem. Entrei em contato com a AIESEC, ONG que faz a interligação entre intercambistas e instituições no mundo todo e após duas semanas e alguns processos seletivos fui aprovada para um projeto em Beira, Moçambique.

Quando decidi ir não pesquisei sobre o país ou sobre a cidade, fui apenas com a imagem que os sul americanos têm sobre o continente Africano, no geral, um local pobre e com poucos recursos para transformação.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

Fiquei hospedada na casa de uma família junto com mais 4 intercambistas de diferentes partes do mundo, fato que me colocou num verdadeiro liquidificador cultural. A adaptação ao banho de caneca e à divisão do quarto e colchão foi rápida, logo formamos uma parceria e convivemos como uma verdadeira família.

Nos primeiros dias tive alguma dificuldade com a alimentação pois não há higiene suficiente no manuseio dos alimentos. Há muitas feiras pelas ruas nas quais é possível comprar uma galinha ou um bode que são abatidos e cortados no mesmo local para o jantar. A agricultura é em sua maioria familiar então compra-se vegetais, grãos e frutas nas portas das casas, os quais são especialmente saborosos.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

O meio de transporte mais utilizado na cidade é a Chapa, são vans em sua maioria muito velhas e enferrujadas e que passam por pontos determinados mas sem horário fixo, é o mais utilizado por ser o mais barato, mas pouco seguro. Existem também as Tchopelas, semelhantes aos TUK-TUK, e os ônibus, pouco utilizados. Eu aluguei uma bicicleta de um vizinho para ir ao trabalho todos os dias por considerar mais seguro e também para conhecer a cidade tranquilamente.

Trabalhei 50 dias na A.M.O.R. – Associação Moçambicana de Reciclagem, ONG que tem como missão instalar um processo de reciclagem em todo o país de forma a gerar impactos positivos a nível ambiental e social. O meu trabalho foi basicamente ensinar processos e conceitos de reciclagem a alunos de 10 escolas, assim como cidadania, direitos e deveres dos jovens.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

Inicialmente, a dificuldade gritante foi o choque cultural em relação ao modo de viver e entender a vida. Apesar do Brasil ter sido colônia de Portugal como Moçambique, as tradições e hábitos comuns, à população no geral causaram-me certo desconforto e descrença.

Hoje compreendo que a diferença entre os povos nada mais é do que uma bela oportunidade de aprendizado, principalmente sobre empatia. A maior dificuldade foi ser entendida por aqueles que me ouviam nas escolas e na equipe de colaboradores da A.M.O.R.; testei diversos métodos de comunicação e compreendi que o mais eficaz é o ouvir.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

Muitas vezes, pensamos em trabalho voluntário como doação de algo que já temos. A maior lição foi: que as respostas estão em quem vive a realidade que queremos ajudar a transformar e o desafio é entender e estruturar as soluções.

Todas as atividades concretizadas nas escolas e com os colaboradores da ONG foram baseadas em percepções a partir da minha própria experiência pessoal e também conceitos da psicologia. Cada uma delas me levou a um novo universo e diferentes formas de pensar, ampliando a minha visão de homem e mundo.

Quando cheguei, tinha pouco conhecimento sobre Organizações Não Governamentais e reciclagem, então tive que aprender rapidamente para ensinar aos alunos. Mais uma vez, ouvir e observar foram as minhas principais ferramentas. Compreendi que paciência, respeito e coragem são fundamentais para criar uma relação positiva, seja onde for e só dessa forma é possível impactar e ser impactada.Todos os dias, deparei-me com uma nova realidade me convidando para sair da mesmice e ultrapassar as fronteiras daquilo que considerava impossível ou inviável.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

Voltei ao Brasil transformada e muito agradecida pela experiência dos quase 2 meses vividos em Moçambique e continuo a jornada da vida fortalecida na ideia de que são os pequenos passos que mudam o mundo e que devo seguir o ritmo do universo, estar sempre em movimento, transformando e sendo transformada.

Tive a oportunidade de participar de reuniões de conselhos dos jovens que almejam melhorias sociais, conviver com adolescentes sonhadores e espontâneos, ser parte de uma família que me ensinou sobre aceitação e gentilezas, trabalhar com uma equipe comprometida que me acolheu com respeito. Os Moçambicanos me ensinaram sobre um mundo mais interligado e a viver minha própria humanidade através da interação com sua realidade, tradição cultural e uma riqueza humana e solidária tão natural quanto respirar.

Moçambique
Trabalho Voluntário – Moçambique

O trabalho voluntário em Moçambique foi a oportunidade de viver a contemplação interior, para criar em mim o que quero para todo o mundo: respeito, coragem, resiliência e amor.

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Trabalho Voluntário – Moçambique

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