O que a vida ensina quando partimos

Hoje, com 27 anos consigo acreditar e entender aquela frase que minha mãe já repetiu centenas, milhares de vezes: Filha, tudo tem o seu momento certo (mãe, você estava certa!). Hoje, 27 anos depois da minha mãe ter tido a seu segundo filho, acredito que ela consiga entender aquela frase que o mundo repetiu centenas, milhares de vezes: Filho se cria para o mundo, uma hora vai chegar a hora dele voar (mundo, você estava certo!).

Mãe, me desculpe pelas vezes que fiz você chorar no aeroporto e que você sentiu aquela dor de rasgar o peito de saudades, eu confesso eu também senti! Atravessar o portão de embarque internacional, foi um misto de sentimentos, feliz pela minha decisão, mas cheia de incertezas. Pai, obrigada por sempre ter sido o maior incentivador para que eu descobrisse o mundo, se hoje sou quem eu sou, devo a vocês dois e todas essas experiências “loucas” que vocês me proporcionaram!

Ao longo desses meus 27 anos eu já passei por três experiências: Hight School na Nova Zelândia, Curso de Inglês no Estados Unidos e viver um sonho na Espanha!

A vida de quem inventa voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.

Ruth Manus – O alto preço de viver longe de casa
Queenstown - Nova Zelândia
Queenstown – Nova Zelândia

O que eu aprendi ao sair de casa aos 15 anos ?

Aprendi que eu posso me virar sozinha! Acho que esse foi o maior aprendizado naquele momento, quem me conhece sabe que aos 15 anos eu nunca tinha pego um ônibus na vida, eu tinha minha mãe na porta do colégio para me buscar todos os dias e ao chegar em casa a mesa do almoço estava posta! No momento em que você decide que você vai encarar o desafio de fazer um intercâmbio, começam a bater milhões de dúvidas: Como sera a casa em qual eu vou viver nos próximos meses ? Como vou me comunicar com aquelas pessoas, se eu não sei falar a língua deles ? Como vou fazer uma conexão ? Como vou passar pela Polícia Federal ? Entre tantas outras… Mas eu te garanto, você irá sobreviver!

Queenstown - Nova Zelândia
Queenstown – Nova Zelândia

O que os outros acham melhor nem sempre é o melhor para você! Quando eu optei pela casa de família, eu queria uma família com criança, crianças são curiosas e inocentes, e o que isso tem a ver ? As crianças vão te ensinar a falar inglês, criança gosta de conversar e criança não tem vergonha de corrigir se você falar errado. Esse era (e ainda é) o meu pensamento, até que me falaram que a melhor opção era pegar uma casa com uma garota da minha idade, por que ela iria me introduzir no grupo de amigos dela, sei que não posso generalizar, mas foi a pior experiência que eu tive! Garotas de 15 anos já tem maldade e sentem ciumes de uma pessoa diferente em casa tendo a atenção dos pais, talvez se eu tivesse seguido a minha vontade as coisas poderiam ter sido diferente, mas aprendi com isso. 😉 Eu sei que essa questão é muito relativa, não podemos tomar como verdade que casas com crianças serão perfeitas, mas a questão é: Faça o que você acha melhor e não poderá culpar ninguém pela suas escolhas.

Eu posso suportar mais do que imagino! Uma menina de 15 anos, que acabou de sair de casa pela primeira vez está vivendo muito intensamente aquela nova experiência, um pingo no oceano naquela época era praticamente um tsunami, e foi realmente uma experiência difícil de lidar com aquela maluca que chamaram de minha irmã por 6 meses, mas não é que mais uma vez eu sobrevivi e por várias vezes achei que iria querer voltar para a casa, mas aguentei até o fim! Eu precisava finalizar aquele ciclo e provar para mim mesma que eu era capaz.

Queenstown - Nova Zelândia
Queenstown – Nova Zelândia

O significado de família. Bom aos 15 anos, geralmente nós somos adolescentes rebeldes, chatos e egoístas achando que tudo tem que ser do nosso jeito e se não for  nossos pais são os chatos da história. O intercâmbio serve para mudar do avesso todos esses nossos conceitos ridículos e nos mostrar que ao contrário do que a gente pensa as únicas pessoas que se preocupam de fato com a gente, com o nosso bem estar, são os nossos familiares e claro mais precisamente os nossos pais! Eu voltei dando muito mais valor para a família, me importando muito mais com o tempo que eu tinha com eles e aproveitar da melhor maneira cada um desses momentos. Diz minha mãe que eu voltei mais carinhosa! =D

Viva intensamente o agora! Quando eu digo isso, eu quero sim dizer: Esqueça o Brasil ao longo da sua experiência. Na época eu que eu fui fazer intercâmbio só existia orkut, msn e um cartão telefônico para ligações internacionais. Facebook, Whats app, 3G era apenas um sonho de um intercambista para se comunicar melhor com a sua família e amigos, mas graças a deus essa tecnologia toda não existia e a minha casa tinha internet discada que era descontado de mim o tempo que eu usava (sem contar que praticamente eu tinha que marcar hora para usar). Eu fui e não vivi intensamente aquele momento, deixei pra trás um namorado que ainda bem hoje é meu marido e faz hoje eu não me sentir tão culpada de ter deixado de viver algumas coisas por lá em troca de ficar na internet com ele! Não culpo ele de maneira alguma (amor a culpa é minha), mas meu corpo estava na NZ e minha cabeça e coração estavam no Brasil! É muito dificil essa situação, somos jovens e a emoção sempre fala mais alto que a razão, mas o conselho mais valioso que eu posso dar é: Quando decidir fazer um intercâmbio, dedique-se 100% a ele, será o seu maior tesouro, vai viver algo que você nunca poderia viver em um lugar cheio de gente pra te proteger.

Ir para o outro lado do planeta tão nova, me fez acreditar que sou uma pessoa corajosa, que eu posso enfrentar os meus medos e passar por uma experiência dessas que te enche o peito de orgulho, de ser quem você é e o que você está construindo, afinal com essa idade eu só estava construindo uma vida inteira que eu ainda tinha pela frente. Me provou que existem pessoas especiais no mundo inteiro e que elas podem morar à 40 Km de você, mas será necessário atravessar um oceano inteiro para que vocês se conheçam. Ká, após 8 anos de ter vivido essa experiência tão diferente, obrigada pelo prazer de ter você em meu casamento, o evento em que eu escolhi a dedo cada um dos meus convidados. Mas também me dei conta como existem pessoas loucas nesse mundo e com maldade no coração, percebi que mesmo que eu estivesse ganhando o mundo, o mundo podia me ganhar em um piscar de olhos por acreditar em tudo e em todos, eu ainda era uma menina inocente com apenas 15 anos!

Sydney - Austrália
Sydney – Austrália

O que eu aprendi aos 20 anos ?

Viver intensamente o agora! Eu sai de Boston, mas Boston não saiu de mim! Até hoje ao me lembrar daqueles dias me aperta o coração de saudades, ali eu construí uma família, a nossa família Boston! Era tão intenso acordar, ir para o curso, passar o resto do dia com aquelas pessoas maravilhosas que parece que eu vivi 10 anos lá com todos eles. O viver intensamente, me permitiu conhecer muita gente bacana, viver a vida como os americanos vivem, buscar mais do que estava no roteiro e de uma maneira muito louca eu fui passar o ano novo na Times Square, fomos de turma conhecer o Washington, fui esquiar, eu me permiti viver cada um daqueles dias e momentos muito intensos.

Boston - Estados Unidos
Boston – Estados Unidos

Fuja dos brasileiros! A minha “família Boston” que me perdoe, mas eu estava tão preocupada com o item viver intensamente o agora que eu me esqueci desse outro ponto que é muito importante também. Eu sei que nós brasileiros temos uma carisma excedente, mas se quer aprender inglês não é falando português que você vai conseguir e é pura ilusão achar que tendo um gringo no meio do grupo de brasileiros nós vamos falar inglês para o “coitado” entender, bastará uma empolgação do grupo e o português voltará com tudo para a roda de conversa e lá se foi a sua pratica fora das aulas =x Viva intensamente o agora inclui viver no idioma do país que você escolheu para chamar de casa nos próximos meses. Brasileiro é praga e é dificil resistir um bom papo na nossa língua, com as nossas piadas… mas que tal conhecer piadas novas ?

Explore: Tem lugares que a gente vai e não sabe quando vai voltar e se vai voltar, por isso seguindo a linha do viva intensamente o agora, explore ao máximo a região, das maneiras mais “loucas”  e diferentes que puder. Descobrir que ficar em um lugar só, por mais legal que ele seja, pode ser chato! Pegue um voo low cost e vá visitar as cidades próximas, pegue um ônibus na china town e descubra o mundo, faça uma viagem de 24 horas sem planejamento algum, pegue um ônibus cheio de estudantes e vá esquiar, arrisque logo uma montanha alta, a sensação de conquista é muito maior … essas foram algumas das coisas que eu vivi e que parecem bobas, mas me permitiu explorar, descobrir e sair daquela rotina que eu havia desenhado para os meu próximos meses.

Boston - Estados Unidos
Boston – Estados Unidos

Foram apenas 3 meses, em um curso de férias. E mais uma vez esse mundão trouxe pessoas especiais para a minha vida, não moram tão perto, mas também não tão longe. Amizades que construímos para a vida, Fer e Aldo ou Papi como você preferir, obrigada por nunca terem deixado Boston sair de nós, me receberem nas suas cidades e continuar essa amizade que existe até hoje e claro, se deslocarem das suas cidades e estarem presente no dia mais importante da minha vida!

O bacana de morar fora do país, independente do tempo é que a vida te apresenta as diferentes formas de amizade, que não importa a distância, mas sim o que existe no coração. Sobre a relação de amizade, você descobre que aquele seu melhor amigo não necessariamente é aquele que você fala sempre, mas sim aquele que nunca vai te abandonar mesmo que você esteja a 3 meses sem falar com ele(sei que parece clichê, mas as pessoas acreditam que melhores amigos precisam se falar sempre e não é verdade). Enfim, não vou citar todos os tipos de amizade, mas essas experiências sempre me fazem refletir muito sobre amigos, amizade, quem se importa comigo e com quem eu me importo, quem é colega e quem é amigo!

Boston - Estados Unidos
Boston – Estados Unidos

 O que eu estou aprendendo  realizando um sonho ?

Por que aprendendo ? Por que esse sonho começou a 6 meses atrás e não tenho dúvidas que essa experiência ainda vai me ensinar muita coisa.

Mas, o primeiro aprendizado foi o mais dolorido e de cara “descobrir” que flores tem espinhos ou que nem tudo são flores. Eu sonhei tanto com esse momento de ir embora do Brasil para morar em outro país, mas morar para valer construir uma vida aqui fora, mas eu desejei com tanta intensidade esse momento que eu simplesmente me esqueci que tudo nessa vida tem dois lados. Não posso negar que morar na Europa é ter qualidade de vida , é poder pegar um trem e em 2 horas estar em cidade que está a 460 Km de você, é poder sair de madrugada na rua sem ter que ficar preocupada com a segurança, é viver em um lugar onde a frase: malandro é malandro e mané é mané, não existe, se um produto no supermercado te custa € 5,99 ele vai te devolver 1 centavo e não vai querer te dar o troco em bala ou simplesmente ignorar que ali deve existir um troco, poderia dedicar um post inteiro falando dos benefícios (farei isso em breve), mas a ideia aqui é mostrar que infelizmente não se pode ter tudo nessa vida, pois pela qualidade de vida e pra viver esse sonho eu abri mão da minha família, eu abri mão de ver minhas afilhados crescerem e hoje quando eu recebo um whats app dizendo: Dinda, estou com muita saudades! Quando você vem me ver ? O peito aperta e a vontade é de largar tudo e pegar o primeiro avião e voltar para a casa, mas é necessário abrir mão de alguma coisas para ter outras.

Lleida - Espanha
Lleida – Espanha

Viver um dia de cada vez! Estou aqui desde Novembro/2015 mas é incrível como a saudades rasga o peito e quando ela chega ela vem como uma avalanche e te derruba e te sufoca, ok alguns podem achar exagero mas é exatamente assim que eu me sinto quando aquela saudades forte bate no peito, mas como ela tem me visitado com uma certa frequência, pois no começo a adaptação é sempre mais dificil, toda vez que ela passa por mim eu já acho que é o fim do mundo, mas entendi que eu precisava aprender a lidar com ela e foi ai que entendi que preciso viver um dia de cada vez. Entendi que eu tenho o direito de ficar triste e me permito viver esse sentimento, da maneira mais cinematográfica possível (Chorando na frente da TV e tomando sorvete no pote), mas isso tem que passar no dia seguinte e eu preciso voltar a minha rotina como se nada tivesse acontecido. Ok, é muito mais fácil falar do que agir assim, mas é assim que tem que ser e é assim que será daqui pra frente…

A valorizar o sol, parece ridículo esse ponto até o dia que você ficar mais de uma semana sem vê-lo! Quando eu cheguei aqui, já peguei de cara uma semana de tempo fechado, neblina e frio, eu nunca havia parado pra pensar como o Sol pode mudar o nosso humor, mais isso é muito real! Não tem muito o que explicar, mas só sei que o sol faz um bem danado para o corpo, mente e alma!

Lleida - Espanha
Lleida – Espanha

Para fechar com chave de ouro, o trecho abaixo da Ruth Manus, resume perfeitamente TODOS esses sentimentos:

O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado. Keep walking.

Ruth Manus – O alto preço de viver longe de casa

 

3 comments

  1. É… a vida é assim mesmo. Tudo tem seu preço.

    Quanto maior a aventura, maior o custo, mas o retorno vale cada centavo.

    Pergunte ( se pudesse… ) aos grandes exploradores.. Marco Polo, Cristovão Colombo, Livingstone, Amundsen, James Cook. Cada um teve sua história marcante longe de casa e olha que naquele tempo não havia nem telefone, muito menos WhatsApp. Mas estou certo que nenhum deles recuaria um milímetro de cada aventura que participou e marcou a vida deles, de seus descendentes e na verdade de toda a humanidade.

    Mayte !!! Keep Walking, mas fique sempre perto e volte sempre.

    Bjs

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