Saint-Emilion é vinho e cultura

Saint-Emilion - Bordéus

Saint-Emilion é uma das regiões vinícolas de Bordéus, mas nem só de vinho vive suas cidades! 80% dos turistas que passam por lá vão com o objetivo de tomar vinho e os outros 20% vão com sede de cultura.

Não é por menos, Em 1999, Saint-Emilion passou a integrar a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO  e desde então recebe 1 milhão de turistas por ano, seja para uma taça de vinho ou um banho de cultura.

Fomos em busca dos dois mesmo, cheguei logo cedo no pequeno vilarejo que abriga menos de 2.000 habitantes. Tinha um único dia para descobrir todos os segredos dessa encantadora vila dos vinhos.

Saint Emilion - Bordéus
Saint Emilion – Bordéus

Pelos tapetes que chamam de estrada lá na França, em 45 minutos nos deslocamos de carro de Bordéus a Saint Emilion. A primeira parada não poderia ser diferente: por favor, uma boulangerie.  As padarias francesas são melhores do que qualquer café da manhã de hotel 5 estrelas, fica a dica. Paramos logo na entrada da cidade: Boulangerie Premier, o tipo de lugar que os moradores compram suas baguetes e saem com elas debaixo do braço mordendo sua pontinha.

Se toda a região soma mais de 2.000 bodegas, Saint-Emilion abriga 800 delas. Foi lá iniciamos a lado alcoólico da viagem. Escolhemos uma entre as oitocentas. Château La Dominique, era a vinícola do dia. Como se fosse um menu de restaurante, o centro de informação turística indica uma opção diferente para cada dia, com tour guiado e degustação.

Saint Emilion - Bordéus
Château La Dominique – Saint Emilion – Bordéus

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Entre os tonéis de carvalho cheios de vinhos descansando, fui descobrindo um universo ainda pouco explorado por mim. Um mundo complexo e curioso que me fez compreender o motivo de tanta diferença entre uma garrafa e outra.

Saint Emilion - Bordéus
Château La Dominique – Saint Emilion – Bordéus

Outra sala, outros tonéis, agora de aço e a produção. Aqui ninguém descansa, aqui se produz. Ainda no mesmo universo dos vinhos e mais uma chuva de informação: colheita, filtragem, fermentação, parte sólida e parte líquida.

Saint Emilion - Bordéus
Château La Dominique – Saint Emilion – Bordéus

Do lado de fora, a parte lúdica de toda a explicação.

Uma parede dividida por faixas, na tonalidade de um vinho tinto, do chão ao seu ponto mais alto vão ganhando intensidade. Uma alusão entre a terra e o céu, quanto mais claro mais novo, o mais bordô, mais envelhecido. Um gole desse vinho e você irá se sentir nas alturas (ou no céu). Mas lembre-se, isso tudo é uma questão de gosto. 😉

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Saint Emilion - Bordéu
Château La Dominique – Saint Emilion – Bordéus

Sentido ao céu, subi para a parte superior do prédio. Encontrei uma piscina de uvas e me senti na novela Terra Nostra ao ter a sensação de estar pisando nas frutinhas e produzindo a próxima garrafa de vinho daquela bodega. As uvas na verdade são pedras, mas engana qualquer um que olha sem tocar. Com três tons de uvas diferentes, a guia nos explicou que eram os três tipos de uvas utilizadas para produzir os vinhos da casa.

Saint Emilion - Bordéus
Château La Dominique – Saint Emilion – Bordéus

Com direito a degustação, provamos dois diferentes. Um novo e mais claro, outro mais envelhecido, consequentemente, mais escuro. Já disse, não importa o seu grau de conhecimento sobre o assunto, o tour vai te servir para aprender o básico desse universo e a degustação para você provar o vinho da casa. E claro, levar algumas garrafas embora. Diferente do que muitos pensam, é possível encontrar vinhos bem acessíveis na região.

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Deixando o vinho um pouco de lado, como logo pela manhã eu já havia adquirido o ticket para conhecer a Igreja Subterrânea (comprar na oficina de turismo) e feito a reserva para o período da tarde, lá fomos nós.

Com um guia e mais 20 pessoas, conhecemos a Habitação St. Emilion, na qual um monge beneditino viveu os seus últimos 17 anos de vida. Impressionante e claustrofóbico imaginar uma pessoa viver por tanto tempo em um espaço que cabia praticamente a cama e um altar para as rezas diárias. O grupo de 20 pessoas teve que se revezar para conhecer o habitação sem janelas, que foi escavada embaixo da terra, ou melhor dizendo, sob a capela.

A Capela da Santa Trindade foi a próxima parada, construída no séc.  XIII está com as suas pinturas intactas. Ao olhar para o teto e para as suas paredes nos perguntamos como é possível aquelas pinturas estarem lá ainda? O guia não demorou muito a matar a curiosidade e explicar que na Revolução Francesa, o local se transformou em uma fabrica de barricas de madeira. O processo de esquentar as barricas produz fumaça e fuligem que subiram e tomaram conta no teto, mal sabia eles na época que isso seria proteção para as pinturas. Quando em 1997 descobriram durante o processo de limpeza e restauração, que toda aquele primor estava em seu estado primitivo: intacto.

A Capela da Santa Trindade – Saint Emilion – Bordéus – Foto retirada do site da cidade

Embora a história seja surpreendente, o espaço é um pouco frio e o que restou hoje da capela foi a sua arquitetura românica, identificada pelos arcos e as suas pinturas. O espaço está completamente vazio e hoje é utilizado para alguns eventos fechados.

O local já tinha provado que era muito mais do que as 2.000 vinícolas, mas o melhor ainda estava por vir.

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Passamos pelas catacumbas, onde eram enterrados os mais nobres, os cleros e os bebês, considerados os seres mais puros. Imagina, pensar hoje em dia que nobres e até os cleros são considerados mais puros que os outros? Sorte a nossa que o mundo mudou!

Se a capela passou uma sensação de frieza por estar vazia, aqui era o mesmo sentimento, porém vazio o local não estava. Abrigando os ossos dos mais puros, o espaço está repleto de caixas que guardam os restos dos seres que já passaram por Saint-Emilion no séc  XII.

Ao olhar para cima, uma cúpula. Decorada com relevos esculpidos, são três homens com longos braços que simbolizam a ressurreição dos mortos. Frestas na cúpula mostram o caminho para o céu.

Chegamos então ao final do tour. Provando que Saint-Emilion é mesmo um local com rica cultura, entramos na  Igreja Monolítica, considerada a maior da Europa nesse estilo.

Como se fosse a garrafa mais cara e mais preciosa do tour, admiramos e degustamos cada cantinho daquela igreja que foi toda escavada em uma única pedra. São 12 metros de altura, que foram construído de cima para baixo, com 38 metros de largura.

Saint Emilion - Bordéus
Igreja Monôlitica – Saint Emilion – Bordéus – Foto retirada do site da cidade

Tentar imaginar como “nasceu” aquele monumento é como beber uma caixa inteira de vinho. Só um pouco alterado para conseguir imaginar, homens escavando uma pedra que mais pra frente seria uma igreja tão grandiosa. As pedras conforme eram retiradas, eram utilizadas para a construção das casas do vilarejo.

Não restou muito do local, além da sua estrutura que hoje é fundamentada por grandes estruturas de ferro, já que sem elas a qualquer momento tudo poderia vir abaixo. Muito da decoração foi saqueada na Revolução Francesa, o que sobrou foram as decorações esculpidas na pedra.

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Todo esse tour mencionado, é privado e por isso a entrada só é possível com guia. Infelizmente não é permitido tirar foto lá dentro, todas as fotos internas foram retiradas do site de Saint-Emilion.

Saint Emilion - Bordéus
Saint Emilion – Bordéus

Entre o vinho e a parte cultural, abrimos um espaço para outra atração muito relevante na França: a gastronomia. =D Fomos então até o Restaurant Le Tertre.

O vinho não poderia ser outro, Saint-Emilion Grand Cru o mais conhecido na região.

Na opção menu do dia, a mais cremosa e saborosa sopa de abóbora que eu já provei (acredite, sou fã das abóboras e de sopa), o salmão acabou perdendo o encanto e eu só pensava na sopa, até que chegou a sobremesa e o cremoso perdeu a vez para o crocante do crumble de maçã. Tão quente quanto a sopa, a maçã que havia acabado de sair do forno iria derreter o sorvete de baunilha que acompanhava essa deliciosa sobremesa.

Gosto quando consigo fechar um destino com 5 estrelas em tudo. 😉

Saint-Emilion já havia provado que era muito mais do que milhares de litros de vinho, que uma rica história que chamou a atenção da UNESCO e que fazia jus a uma gastronomia francesa. Fui em busca de só mais um clichê francês, será que ele também era um vilarejo encantador? Não que ele precise me provar nada!

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Saint Emilion - Bordéus
Saint Emilion – Bordéus

O local não é um dos mais românticos, até porque as suas ladeiras podem ser cenário de uma trágica e vergonhosa vídeo cassetada. As casas são todas iguais e com a mesma cor:  das pedras da igreja. O charme do local fica mais por conta das lojas e restaurantes do que pelo local em si. Mas permita-se dar a volta por todo o vilarejo, de preferência pelo alto. Verá vinícolas particulares, casinhas de pedras e uma cidade que é uma verdadeiro sobe e desce.

Foi em Saint-Emilion que surgiu o Canelé. Para tirar as impurezas do vinho, jogava-se clara de ovo no processo de filtragem. Com a sobra da gema, os padres então decidiram fazer bolinhos para distribuir aos pobres. Como tudo na gastronomia, os bolinhos foram gourmetizados e hoje vendem a preços exorbitantes o que um dia já serviu de alimento para mais necessitados.

Saint Emilion - Bordéus
Canelé – Saint Emilion – Bordéus

Saint-Emilion é vinho, é cultura e é gastronomia

 

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