Travessia pelo Salar de Uyuni – do Chile a Bolívia

Salar de Uyuni

Quando eu e meu namorado comentamos com amigos e familiares que estávamos planejando uma viagem a Bolívia, a reação, por muitas vezes, foi aquela cara de preocupação e dúvida: “Bolívia? O que tem de bom por lá?”. Nós iríamos atravessar o Salar de Uyuni.

O Salar de Uyuni é o maior deserto de sal do mundo. Mas, acontece que o passeio até ele não são apenas paisagens de areia, sal e sol. A travessia desde San Pedro de Atacama até o Salar Uyuni é um passeio incrível que tem a apresentar as paisagens mais lindas que já vi na vida.

Se estiver determinado a encarar essa aventura já pode se preparar psicologicamente para passar um ou dois dias sem um banho quente e o conforto de um bom hotel.

Chegamos a San Pedro de Atacama. Sem reserva para o passeio até o Salar de Uyuni, fomos buscar uma agência. Pelo o que percebemos não existe um risco tão grande de fazer isso, pois há passeios saindo todos os dias.

Buscamos dentre as mais diversas agências de turismo um tour com um bom custo-benefício. O que pode variar de uma para outra é o cardápio (o que acaba não sendo tão simples para um vegetariano), o guia e as pessoas que passarão as próximas 72 horas com você. Reconheço que pedi, em um primeiro momento, por pessoas que falassem qualquer outro idioma que não fosse português ou espanhol.

Leia também:  Deserto do Atacama – Como planejar a sua viagem.

No momento de negociar o tour vão tentar vender os diferenciais de cada uma e os problemas das outras. Porém, percebemos que na prática, é tudo meio igual. Jeeps (4×4), os refúgios, o hotel de sal, etc.

Ah, claro que também vão tentar contar aquelas histórias de alguém que algum dia comprou um tour qualquer e ficou perdido no deserto. Não sabemos a veracidade desses contos. Por via das dúvidas recomendamos casar o preço com a reputação das empresas na região.

Optamos pela Estrella del SurNão era a mais cara nem a mais conhecida, mas que foi uma boa aposta no final.

Dinheiro

O tour de 3 dias, 2 noites com o final na cidade de Uyuni saiu em torno de CLP 110.000 (pesos Chilenos) por pessoa, o que em reais seria algo próximo a R$ 600,00. O pacote inclui o transporte (van até a fronteira e 4×4 até Uyuni) todas as refeições e hospedagem para as duas noites. Além do custo base levei aproximadamente Bs 330 (pesos Bolivianos) – em reais cerca de R$180,00 – para pagar a taxa aduaneira ao entrar na Bolívia (Bs 15),  entrada do Parque Nacional Reserva (Bs 150), Termas de Polques (Bs 10), Isla de Incahuasi (Bs 30) e alguns trocados para lembrancinhas ao final do passeio.

Valores de 2015.

O que levar

Independentemente do período do ano, por conta da altitude, durante a maior parte do passeio você estará usando roupas de frio pesada. Como exceção a essa regra, há momentos, principalmente durante o dia em lugares um pouco mais baixos que você poderá tirar um pouco o casaco. Nesse sentido, minha recomendação é que leve um par de “segunda pele” – tanto para a parte de cima, como para a parte de baixo. Um casaco para suportar frio intenso. Um casaco mais leve para momentos de menos frio. Luvas, gorro, boné, óculos de sol, protetor solar, algumas camisetas ou blusinhas e um tênis bom para caminhadas.

Outros artigos importantes que não podem faltar são: câmera, celular (para fotos), e uma bateria portátil – um destaque para esse item, pois sem ele teríamos ficado sem bateria na câmera ao final do primeiro dia. Recomendo uma da TP-Link, que apesar de ser um pouco mais pesada, aguenta (quando novo) cerca de 5 cargas em um celular tipo smartphone.

Salar de Uyuni
Entrada Parque Nacional Reserva – Bolívia

Primeiro dia

Como de praxe no Atacama, o passeio começa muito cedo quando te buscam no hostel lá pelas 6 da manhã. Te levam até a fronteira, onde farão o controle migratório do Chile (cuidado, não se esqueça do passaporte!). Nesse momento também, conhecemos os nossos companheiros de viagem – no nosso caso, 3 meninas de Recife e um Francês hispanofalante – uff, quase! – que se tornaram bons amigos até hoje.

Ao deixar o Chile, a van nos levou por uns 15 minutos até o próximo controle migratório na Bolívia, que está a uma altitude de aproximadamente 4.000m e no meio do nada. Se prepare pois faz muito frio lá em cima – não se esqueçam de levar luvas! Após passar pelo controle migratório da Bolívia serviram um belo de um café da manhã – que no nosso caso incluía pão, queijo, abacate (há brasileiro que não gosta, mas eu amo!), chocolate, chá de coca e café. Por fim, os motoristas dos 4×4 são apresentados ao grupo e o tour se inicia.

Desde a saída do controle boliviano até o entrada do parque nacional para a compra dos tickets a paisagem já aparece linda demais. A combinação da paisagem com a movimentação dos 4×4 dando início ao passeio é espetacular. Logo nos primeiros minutos a primeira parada acontece na Laguna Blanca (lagoa branca), que por conter uma composição química diferenciada se torna um espelho gigante – um prato cheio para belas fotos.

Ao subir novamente na 4×4, o passeio segue até a Laguna Verde (lagoa verde), que também apresenta um visual impressionante. Torça para que faça vento, pois só assim para que ela fique com a aparêcia verde, caso contrário, será muito semelhante a anterior.

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Ao arrancar novamente, percorremos alguns quilômetros e fizemos uma pequena parada no Desierto de Dali. Que leva esse nome por conta da semelhança com as famosas pinturas do pintor espanhol. Finalmente, chegamos à Laguna Salada e às Termas de Polques que te convida a um banho quente (30ºC) a mais ou menos 4.000m de altitude. Todo o esse caminho te faz lembrar o quão pequena e insignificante que é a sua existência, os seus problemas e medos ficam do tamanho de formigas e só quando você está lá na frente de semelhante espetáculo se pergunta se a sua vida é por acaso uma piada de Deus.

Salar de Uyuni
Laguna Salada – Bolívia

Além de ser o maior deserto de sal do mundo, também é o mais alto.

Minha cidade natal, Bogotá, na Colômbia, está a 2.600m de altitude. Por esse motivo pensei, que aguentar uma altitude elevada não seria um grande problema. Porém ao chegar no ponto mais alto do tour, a 4.800 no Geyser Solar de Mañana, a felicidade é tanta que você esquece (ou desafia) as indicações do guia para não realizar muito esforço. Pula, faz poses para as fotos e caminha mais rápido, até perceber que com o mínimo de esforço o seu coração está super acelerado e a sua cabeça começa a apresentar indícios de que irá explodir a qualquer minuto.

Para ajudar a passar um pouco o mal de alturas, ou mais conhecido na região como “sorojchi”, o guia nos ofereceu um pouco de folha de coca para mastigar, mas, para falar bem a verdade, não fez muito efeito além de ter um gosto terrível.

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No meio da tarde, lá pelas 16 horas finalmente chegamos ao refúgio que nos acomodou durante a primeira noite. O local é uma pequena construção  bem a frente de umas das paisagens mais icônicas de todo o passeio: a Laguna Colorada (lagoa vermelha). Repleta de flamingos rosados que se misturam na cor da paisagem.

O local conta com alguns quartos coletivos com cerca de 6 ou 7 camas e poucos banheiros. Por ser um local bastante simples e no meio do nada. Há algumas limitações que servem para nos desconectar do mundo em que vivemos: sinal/wifi/internet – nem pensar e eletricidade até às 20:00 apenas. As principais atividades que restam para o fim desse primeiro dia, então, são: apreciar a vista incrível para fazer excelentes fotos e desfrutar um jantar caseiro preparado por locais acompanhado de vinho boliviano.

Segundo dia

Ao despertar no dia seguinte, apesar do cansaço ainda sentido por conta da altitude, é hora de tomar café e colocar o pé na estrada – ou melhor, trilha – novamente.

Ao deixar o refúgio, e atravessar para o outro lado do parque, passamos por um posto de controle, onde irão checar o seu ingresso adquirido no início do passeio na entrada do parque nacional.

Fique bastante atento a isso! A poucos minutos está a primeira parada do dia: a Árbol de Piedra (árvore de pedra). Seguimos por um longo caminho passando pelo Desierto de Sioli até as  Lagunas Altiplanicas. São algumas horas percorrendo longas distâncias no meio de um cenário muito louco que mistura um pouco de deserto, montanhas, lagos, céu e sol.

Uma boa dica para esses momentos mais longos no carro é levar no celular, ou algo do tipo, uma lista de boas músicas, ou se seu espírito for muito aventureiro e estiver afim de provar algo novo, pode pedir recomendações de músicas para o próprio guia. No meu caso a trilha sonora que marcou a viagem – e me lembro dela cada vez que escuto – foi a música “El Taxi” – um reaggeaton que, no primeiro momento, soou bem estranho, mas que ao final marcou esses momentos da viagem.

São 3 as lagoas visitadas até o fim da manhã do segundo dia: Laguna Honda, Hedionda e Chiarcota. Cada uma delas com suas belezas únicas! Ao fim da terceira, chega o momento de montar acampamento e saborear o almoço que foi preparado pelas mesmas locais que nos receberam no dia anterior no refúgio. Arroz, purê e molho de tomate especialmente preparado para vegetarianos. Confesso que não posso reclamar. Estava bom.

Salar de Uyuni
Laguna Hedionda – Bolívia

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No período da tarde, passamos pelo mirador do Volcán Ollague, Salar de Chiguana e o pequeno vilarejo de San Juan antes de chegarmos ao Hotel de Sal. Esse é um dos momentos únicos da viagem: água quente para um banho mais do que esperado e uma bela cama para descansar.

O hotel é bastante confortável e muito mais preparado do que o refúgio da noite anterior. Lá é possível carregar celular, câmeras e outros aparatos eletrônicos. Depois de apreciar o jantar mais “chique” da viagem acompanhado de um vinho boliviano e aquecedor a gás, fomos dormir para nos preparar para o grande dia: a visita ao Salar de Uyuni.

Salar de Uyuni
San Juan – Bolívia

Terceiro dia

No último dia do passeio, nos acordam quando ainda escuro. O plano é chegar no Salar de Uyuni a tempo de ver o amanhecer. O céu está limpo e as estrelas ainda estão ali enfeitando a sua vista.

Ao chegar na planície de sal não possível ver mais do que duas cores: branco e azul. Não há montanhas, pessoas, lojinhas ou sujeira, é só você, seu grupo e aquele silêncio ensurdecedor. A sensação de deixar as vias locais e ingressar ao Salar, é como se estivéssemos deixando um carro e ingressando instantaneamente em um barco navegando em um mar bastante tranquilo. Nesse momento, você se pergunta como o guia consegue se localizar em tamanha imensidão sem nenhum tipo de sinalização ou referências.  Com as mãos e as bochechas congelando pelo frio matinal do deserto e o coração batendo cada vez mais forte, o planeta gira e o sol começa a aparecer. Nesse momento o tempo para.

Uma vez que o sol apareceu, o guia nos deixou um espaço de tempo livre para que pudêramos tirar algumas fotos de perspectiva que queríamos.  Na prática esse ainda não é o melhor momento para fazê-lo, pois como o sol ainda está muito baixo, a sombra se destaca muito, o que de alguma forma acaba com o encanto da perspectiva da foto. Mais para frente haverá um outro momento, próximo ao meio-dia, onde a sombra não é mais o problema.

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A partir daí a primeira parada do dia é na Isla Incahuasi. Ou na nossa interpretação em português: a ilha dos cactos gigantes.

Para ingressar e apreciar o visual da Ilha é necessário pagar pelo ingresso que também te dá acesso ao museu local e aos banheiros. Depois de fazer a caminhada até o topo e voltar, o guia nos esperava com o café da manhã pronto. O local reservado para o café é muito bonito, e conta com a bandeira de todos os países, os quais já enviaram representantes turistas para esse lugar tão remoto no interior da Bolívia.

Salar de Uyuni
Isla Incahuasi – Bolívia

Após apreciar o café da manhã, com o sol já mais elevado, chegou o momento de descobrirmos um local no meio da imensidão para tirarmos mais das famosas fotos de perspectivas. É um dos momentos mais divertidos do passeio, no qual a criatividade é chave para conseguir bons resultados. O mais engraçado é que no princípio, por ainda não entender muito bem a dinâmica do negócio, as primeiras fotos acabam saindo todas erradas.

Salar de Uyuni
Salar de Uyuni – Bolívia
Salar de Uyuni
Salar de Uyuni – Bolívia (fail)
Salar de Uyuni
Salar de Uyuni – Bolívia

Após percorrer alguns quilômetros, já em direção à saída do Salar, chegamos ao Museu do Sal. E ao monumento do Rally Dakar. Ambos estão próximos um ao outro e é possível caminhar entre eles. Após alguns minutos, passamos por um pequeno Pueblo Colchani local para compra de lembrancinhas de sal e almoço.

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Nas proximidades da cidade de Uyuni, fizemos a última parada no Cementerio de Trenes (cemitério de trens).

Salar de Uyuni
Cementerio de Trenes – Bolívia

O povo boliviano é bastante humilde e simpático. Apesar de não muito bonita e estruturada, você pode ficar tranquilo ao caminhar pelas ruas da cidade de Uyuni. Ninguém vai tentar se aproveitar do seu desconhecimento – pelo menos não tentaram comigo. O que torna esse momento da viagem ainda mais fascinante é o fato de que o lugar não está preparado “turista Loney Planet”, de forma que se faz necessário afiar o (portu)(espa)nhol e sair por aí perguntando por hostels, ônibus, bancos, e casas de câmbio, etc.

Nesse momento nos despedimos de nosso guia e de nossos companheiros de viagem que seguiram para destinos diferentes. No meu caso, optei por comprar um ônibus direto para La Paz. Onde dei continuidade em nossa jornada que terminaria em duas semanas em Lima, no Peru.

Salar de Uyuni
Salar de Uyuni – Bolívia

Por aqui termina meu relato sobre a travessia de San Pedro até a cidade de Uyuni na Bolívia. Até o próximo post, até o próximo destino!

2 comments

  1. Ola belo relato da viagem… vc teve algum problema com o motorista guia? Estou a viajar para Atacama e, gostaria de fazer essa viagem ATACAMA x UYUNI e voltar para atacamamas, so vejo comentarem o fim da viagem em La Paz… esta viagem nao volta pra Atacama não ???

    1. Olá Carlos, não tivemos problema algum com o motorista foi uma agência excelente! Recomendo que pesquise muito sobre a agência, pois ouvi alguns relatos não muito legais com relação a motorista, alimentação e hospedagem. Existe a opção sim de voltar para o Atacama, será uma viagem cansativa, pois o que é feito em 3 dias (Atacama – Bolivia) você vai fazer em um único dia esse retorno (Bolivia – Atacama). Outra opção se você quer terminar o passeio no Atacama é iniciar a viagem na Bolivia.
      Abraços e uma boa viagem.

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