A vida toda em uma mala

Sair de casa para viver em um novo país é uma das coisas mais aterrorizantes e apaixonantes que pode acontecer na vida de uma pessoa. Seja um intercâmbio para estudo de idioma, trabalho voluntário, troca de universidade, ou até mesmo se jogar como um visitante bem curioso em um país desconhecido, sempre será uma aventura tão intensa que valerá a pena nomear-la como um importante capitulo de nossas vidas.

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A estrada na Chapada dos Veadeiros, Brasil

Tenho 26 anos e comecei minha “vida fora de casa”  com 22 quando embarquei com rumo a um intercâmbio voluntário na Russia, profissional no Chile e continuidade da vida no Brasil, onde me encontro até hoje. Confesso que essa menina tímida e insegura que saiu de casa no dia 2 de Junho de 2011 nunca mais foi a mesma.

Depois de pesquisar, refletir, decidir e preparar os planos para a próxima etapa da vida, você está no aeroporto com toda a vida compactada e resumida em uma mala que quer explodir e com um aperto gigante no coração. É o momento de dar tchau e embarcar nessa experiência mágica.

Quando esse momento chegou para mim pela primeira vez, acho que tinha consciência sobre as muitas coisas que estava deixando para trás e sem dúvida a principal lição que aprendi antes mesmo de subir no avião foi: “não se apega não!”. Claro que inevitavelmente você pensará sobre sua família – no meu caso na minha mãe, irmã e cachorro – nos seus amigos, nas datas comemorativas que você estará longe, no cheirinho gostoso da comida de casa e até mesmo no olhar de “não vá” do seu pet, porém, ao mesmo tempo, todos esses fatores acabam se tornando a base para ajudar a entender que esse momento é seu e que a vida se trata disso. As coisas físicas ficam para trás e, ao retornar um dia, você notará que ficou mais fácil doar aquele par de sapatos lindos que comprou por impulso alguns anos atrás. Perceberá também que os verdadeiros tesouros da vida estão guardados na memória e no coração.

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Uma das idas e vindas, em Guarulhos.

Se vira! Essa é a minha parte favorita do intercâmbio. Uma vez você colocou o pé em terra estrangeira, chegou o momento de você assumir a responsabilidade sobre você mesmo, pois a partir daí não tem mais ninguém para te resgatar. Os seus 5 sentidos ficam mais espertos, e você começa a buscar a aprender de tudo o que precisa para desenrolar a situação em que se meteu. Tentar entender placas em um novo idioma, perguntar por informações para uma pessoa local, descobrir o transporte e caminho correto para chegar no seu destino final fazem parte daquele aprendizado infinito que apenas o intercâmbio pode te dar.

Com o tempo, ao perceber que sobreviveu ao desafio que se propôs, você começa a se tornar mais confiante. A sensação é de quem está aprendendo a voar e de quem provou a si mesmo que é capaz de tomar decisões próprias sem que ninguém tenha que dizer a hora de chegar em casa. Como o fruto do seu trabalho e de ter assumido a responsabilidade de enfrentar um novo contexto, você pode sair com novos amigo comer e beber e descobrir como é ser independente e livre para viver a sua vida.

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Priviet, ou “olá” em russo.

Adeus rotina. Geralmente o tempo de um intercâmbio pode variar entre 5 meses e 2 anos e apesar de parecer uma eternidade, o tempo é mínimo quando comparamos com a quantidade de anos que vivemos e o tempo que temos disponível para explorar e desfrutar a nossa terra natal. E talvez seja por isso que tudo o que vivemos no intercâmbio é tão intenso. Quando você vai para o seu intercâmbio, mesmo que você trabalhe ou estude no mesmo lugar, todos os dias são bem diferentes, pois depois da jornada de trabalho/estudo sempre haverá eventos ou atividades com o seu novo grupo de amigos. Minha dica: diga sim para tudo! Happy hours, despedidas, boas vindas,  jantares, almoços e todos os tipos acontecimentos que serão a desculpa perfeita para comemorar com o novo grupo de amigos sem importar se é segunda ou sexta-feira. São diversos os planos de viagens para conhecer cada detalhe do seu novo país – a cada feriado, um motivo para conhecer um lugar novo. Tudo acontece em full HD – os sabores, cheiros, paisagens e pessoas contribuem para que os seus sentidos estejam 100% focados no agora.

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Versão russa do Festival Holi em Izhvesk

Novos amigos. Normalmente ao chegar no novo destino você encontrará muitos estrangeiros na mesma situação, o que facilita a criação de laços de amizades fortes e duradouras. Nesse contexto, novos amigos chegam e os velhos se vão em um ritmo mais rápido do que você imagina. O seu novo círculo social é composto por pessoas que estão ali apenas de passagem, e, por isso, a oportunidade para se aproximar rapidamente desse seu novo grupo de amigos.

Normalmente eles serão os seus companheiros de apartamento, quarto e banheiro, e enquanto estiverem presentes serão a sua família para tudo o que der e vier. Apesar das idas e vindas, esse novo grupo sempre estará por perto – mesmo que virtualmente – para se lembrar das aventuras, momentos marcantes e compartilhar sobre o rumo das suas vidas que um dia coincidiu com a sua.

 

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Grupo de amigos em Izhevsk, na Rússia

 

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Grupo de amigos em Santiago

Amo muito mas não é meu. Sabe aquela familiaridade com as coisas do seu país e o sentimento de que tudo aquilo é seu – governantes, políticos, sistemas de transporte, artistas locais, produtos que só tem no seu país, etc? Então, a partir do momento que estiver em um novo país, você perceberá que já não. Você não conhecerá mais a vizinha, não conseguirá encontrar aquele shampoo que usou toda a vida, e não saberá quem são os artistas locais. Agora, que você não é mais um local, terá que se acostumar/adaptar às novas regras que ditam a vida das pessoas que vivem naquele país. Esse efeito é o qual chamam por aí de choque cultural. Querendo ou não, aquela sensação de que não é meu sempre estará presente, porém, ao mesmo tempo, é muito interessante poder observar como um expectador os problemas que são enfrentados pela população local e que, na maior parte das vezes está relacionado com os mesmos problemas que vivemos em nossas casas – corrupção, insegurança, saúde e educação, por exemplo.

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Salvador de Bahia – Brasil

Se perder e começar de novo. Construir uma vida nova, mesmo que temporária em um novo lugar pode até dar a sensação de muito trabalho, mas é um convite que aparece em nossas vidas para mudarmos algumas coisas que vem nos incomodando há tempos, ou para se dedicar a você mesmo sem ter que se preocupar em satisfazer alguém por conta de julgamentos ou qualificações do que você tem ou deixa de ter.

No início da minha experiência em Santiago, no Chile, dediquei muitas das minhas manhãs de domingo a caminhar sem rumo e me perder pelas ruas da cidade.  Essa é a melhor maneira que encontrei para descobrir os meus lugares favoritos – como cafés ou lojinhas e também para desfrutar um pouco do tempo de solidão e da paz interior que acabamos encontrando. Se dê a oportunidade de se apaixonar – não digo apenas no sentido de encontrar um namorado(a), mas pelos novos lugares, pelas ruazinhas floridas, pelas árvores, ou até mesmo por aquele sorvete que servem apenas naquele local que você descobriu em uma dessas caminhadas. Ao final das contas, mesmo estudando ou trabalhando, esse tempo da vida chamado intercâmbio é tudo para você naquele momento. O aproveite da melhor forma e o use de forma inteligente, buscando conciliar problemas internos e superando todos os desafios que baterem na sua porta.

Descoberta em um dos domingos pela manhã em Santiago
Descoberta em um dos domingos pela manhã em Santiago

Ao escrever esse post vejo o quão maravilhoso é olhar para trás e ver o quanto vivi e cresci nos últimos anos morando fora do meu país. Vejo tudo isso como uma oportunidade incrível para perceber que o mundo realmente está acontecendo fora de casa e longe da tv. Muitas vezes me surpreendi perguntando se estava indo embora ou voltando, mas acredito que jamais poderei responder com certeza. Dei um novo significado à palavra Lar e à palavra mundo.

…E como dizem na minha terra natal: “nadie me quita lo bailado”, em português: “ninguém me tira o que já dancei”.

4 comments

  1. Ah, quanta memória esse texto me deu! Eu lembro quando sai de casa com toda a vida numa mala e um aperto danado no coração. A certeza da vontade de ir e o medo enorme do que ia encontrar. E passar pelo sentimento de se superar, de aprender muuuuito sobre você mesmo, sobre culturas, sobre aceitação, sobre saudades. De fazer novos amigos, de sentir muita falta dos seus amigos e família. De adotar uma nova família também. Eu acho que nunca seria a pessoa que sou hoje se não tivesse me arriscado a, um dia, ir. Foi bom, e por vezes me dá um comichão danado e penso: será que dá pra ir de novo?
    🙂

    1. Klécia também acho que enfiar a vida todo em uma mala e partir transforma as pessoas! Começamos a olhar o mundo de outra maneira, as pessoas e com certeza passamos a dar importância para coisas diferentes, diria que coisas maiores! Que bom que esse texto te trouxe tanta reflexão. Acredito que o aperto no coração nunca passa e muitas vezes a dúvida se fizemos a coisa certa ou não nos rodeia, mas tenho certeza que é sempre melhor partir e ter que voltar do que ter a dúvida: e se…

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