17 dias pelo Vietnã – Uma mulher viajando sozinha

Vietnã

Cada dia mais o assunto: Mulheres viajando sozinha está em alta. Sorte a nossa! Estamos nos tornando cada vez mais independentes e deixando o medo e os receios de lado, embora eles nos acompanhem sempre.

Hoje temos o prazer de relatar mais uma experiência de uma mulher viajando sozinha pelo mundo a fora. Uma viagem ao Vietnã, por  Janine Tavares, uma portuguesa muito querida e corajosa.

Por: Janine Tavares

Estou no Café Arábia, sentada exatamente no mesmo sítio onde passava as tardes do meu dia de folga a planear a minha viagem solo ao Vietnã.

A sensação é engraçada, estar agora a escrever sobre a viagem, pois lembro-me perfeitamente de estar a pesquisar, a ler blogs, a sublinhar informações importantes no livro ‘Lonely Planet’, e a seguir grupos dedicados ao Sudoeste Asiático.

Sabia que devia ter um plano, saber onde deveria chegar, de onde partir e o que visitar pelo caminho. Lembro-me que fiz vários itinerários, pois o primeiro era complicado realizar, tinha muitos lugares para visitar, o que iria fazer com que eu passasse no máximo 2 dias em cada cidade, e isso eu sabia que não queria, pois eu gosto de poder respirar e sentir o lugar onde estou, para isso é preciso tempo.  

Depois de uns 4 planos modificados, cheguei no plano final: Hanoi – Halong Bay – Ninh Binh – Phong Nha – Hoi An – Dalat (Se tivesse tempo) – Saigao.

Gosto do inesperado, aprendi que criar expectativa é errado. Mas fiz bastante pesquisa, não tanto sobre o país, mas mais sobre mulher a viajar sozinha pela Ásia. Queria estar bem preparada e ter toda a informação possível.

Já tinha viajado sozinha antes, quando fui a Bali e à Índia, (em ambos tinha destino fixo) mas nunca o tinha feito desta maneira, percorrer um país de norte a sul, ir de lugar em lugar, hostel em hostel, fazer a mochila, desfazer a mochila. Desta vez, senti uma maior responsabilidade, maior receio, medo, entusiasmo, coragem e felicidade enquanto me preparava.

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Pensei por breves segundos em cancelar as férias. Mas, ganhei coragem e não cancelei! Decidi ir sozinha, uma das razões porque decidi fazer só Vietnã (melhor decisão de sempre).

Sempre achei que era preciso muita coragem para o fazer, mas não é preciso nada, é preciso corpo, vontade e sorriso na cara.

HANOI

Vietnã
Hanoi – Vietnã

O hostel que reservei em Hanoi (foi o único alojamento que reservei previamente) enviou um táxi para me buscar ao aeroporto, optei por este serviço, porque queria me sentir segura assim que colocasse os pés no Vietnã. Claro que, eu super entusiasmada, comecei logo de conversa com o motorista, mas ele não entendia nada do que eu dizia. Fiquei muito feliz com a minha decisão pelo hostel, super bem localizado, moderno.

Fiquei num quarto de mulheres com 6 camas, 3 beliches (li muitas histórias sobre ficar em quartos mistos para perceber que queria ficar só em quartos femininos). No meu quarto estava uma alemã – Viola, que me inspirou logo muita confiança. Passados 10 minutos de pousar as mochilas já andava nas vivas ruas de Hanoi com ela.

Hanoi, uma das cidades mais bonitas da Indochina colonial e muitas vezes o ponto de partida ou de chegada, pois situa-se bem no Norte do Vietnam. Nas ruas? Uma confusão total, carros, carrinhas, motas, bicicletas, atrelados de venda de comida, turistas a caminhar… Nos primeiros 5 minutos senti medo de andar na rua, não porque me podiam roubar, mas por medo de ser atropelada. Andar nas ruas no Vietnã é uma coisa que se aprende com o tempo, lembro-me de um local me dizer que não devemos hesitar nem parar quando atravessamos a estrada. A regra é atravessar sem olhar, porque eles vão nos contornar, se hesitarmos eles não sabem o que fazer, podendo ser perigoso.

Uma das muitas sensações que tive e nunca vou esquecer, e que senti logo no primeiro dia, foi pensar que só dali a 17 dias tinha que estar no aeroporto em Saigao (meu último destino). Até lá estava por minha conta e risco.

Senti-me tão livre, sem horários, regras, alguém para me dizer o que fazer, etc.

No dia seguinte, fui com a Viola para, pensava eu, Ha Long Bay (Baía de Ha Long), quando no meio do caminho ela me diz que vamos para Bai Tu Long Bay  (aqui está o fato de eu não ser muito fã de fazer grandes planos).  Quando soube, dei um sorriso ao mundo e agradeci, pois quando estava a fazer o plano da viagem, estava em dúvida entre fazer Ha long bay ou Bai tu Long bay.

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Bai Tu Long Bay -Vietnã

Ha long bay é considerado patrimônio mundial da UNESCO, sempre lotado de gente mas Bai Tu Long Bay é o mesmo cenário mas com menos turistas. 

Foram dois dias maravilhosos. Acordar no meio da baía e ver todas aquelas ilhotas de calcário que se elevam das águas é surreal. O grupo com que compartilhei estes dias foi fantástico, nele estavam 2 outras ‘solo travelers’.

Depois de Bai Tu Long Bay fiquei mais um dia em Hanoi, onde fui visitar Ho Chi Minh Mausoleum e fazer umas compritas. A Viola já tinha seguido viagem para Sapa. Fiquei com a Jana, outra alemã que conheci no cruzeiro.

De Hanoi segui para Ninh Binh de comboio (trem), onde conheci um casal muito engraçado do Chile.

Foram 4 horas de viagem a rir e a conversar, quando demos por ela, estávamos hospedados na mesma homestay (locais que alugam quartos, camas, em casa deles – melhor opção para viajar e experienciar a pureza do país).

Ninh Binh

Em Ninh Binh, mais precisamente Tam Coc, conheci uma rapariga da Nova Zelândia, Nikki, que já estava a viajar há algum tempo. Saímos a conhecer a aldeia juntas. Alugamos uma moto, colocamos no Maps.me app (aplicativo que todo mochileiro usa) Bai Dinh Pagoda, um templo budista localizado nas montanhas Bai Dinh, que consiste num conjunto the templos antigos e modernos. É considerado o maior templo budista de todo o Vietnam, é um lugar de peregrinação para muitos vietnamitas.

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Bai Dinh Pagoda – Vietnã

A viagem de moto para esse templo foi maravilhosa, apesar do frio. O mapa levou-nos por estradas muito rurais, pelo meio do campo, a certa altura pensei que estávamos perdidas, porque não víamos nada a não ser campos de arroz, montanhas, verde.Isto é das coisas mais bonitas do Vietnã, no meio do nada encontrar um cenário de perder a respiração.

O templo Bai Dinh foi dos mais bonitos que já vi. Arquitetura chinesa, uma área enorme para se caminhar com diversas estátuas de budda alinhadas, que inspiram paz. Vi pouquíssimos turistas ocidentais, mas estava bastante cheio com turistas vietnamitas. Amei visitar este templo.

Chegamos ao hostel geladas, e o pior de tudo e que os chuveiros são na rua. Duche rápido e cama. Aqui fiquei num quarto misto com 6 camas, mas foi tranquilo, só havia um americano no quarto, e ele era bem calminho.

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No dia seguinte, último dia em Tam Coc, fui com a Nikki fazer um passeio de barco, daqueles que tens um vietnamita a remar com os pés, sim, a remar com os pés. Foi um passeio deslumbrante. Tam Coc é conhecido por ser Ha Long Bay terrestre, significa ‘3 cavernas’ e possui uma beleza cárstica super natural. Como sou fascinada por templos, à tarde antes de seguir para o próximo destino fui a Bich Dong Pagoda, um conjunto de templos caverna encantador a 3 km de Tam Coc. Aqui consegui parar por uns minutos e fazer uma meditação de agradecimento por poder estar ali presente.

Despedi-me da Nikki e dos outros viajantes e segui de sleeping bus para Phong Nha-Ke Bang Park, umas 7 horas de viagem. Os autocarros (ônibus) no Vietnã são a forma mais econômica e fácil de viajar.

Vietnã
Vietnã

Estes sleeping bus, são autocarros em que os assentos reclináveis se fazem de cama. É o transporte mais usado pelos mochileiros, pois podes fazer longas viagens de noite e poupas no alojamento. São bastante confortáveis e deixam-nos exactamente no lugar onde queremos chegar, e onde os comboios não chegam. Estava muito reticente em andar nestes autocarros, porque li alguma informação um pouco negativa, mas acabou por ser uma experiência bastante positiva e muito conveniente.

Phong Nha Ke Bang Park

Vietnã
Phong nha ke bang

Cheguei a Phong Nha às 4 da manhã, e a dona da casa onde ia ficar foi me buscar de autocarro, pois a casa ficava a uns 10/15 minutos de distância, ou seja era eu com as mochilas, uma vietnamita pequenita numa moto, no meio do nada e escuro como o breu. Foi um momento hilariante, ri muito sozinha durante o trajeto de moto.

Phong Nha-Ke Bang é um parque nacional que foi reconhecido em 2003 como Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO.  A vasta área, estendendo-se até à fronteira Laos-Vietname, contém espetaculares formações cársticas e tem várias centenas de cavernas e grutas. Aqui visitei as duas cavernas mais bonitas que alguma vez vi.

Fiz um passeio de barco pela Caverna de Phong Nha, assim é o seu nome. Esta caverna é a mais turística. Para se entrar na caverna, tivemos que ir de barco. O cenário é absolutamente espectacular. Antes de entrar, o barco pára, para se desligarem os motores e somos levados por duas vietnamitas a remar. Eu estava sem palavras, foi das imagens mais bonitas que já vi. Tive que parar de tirar fotos, quando cheguei a conclusão que elas não estavam a captar o que os meus olhos estavam a ver. Foi um passeio deslumbrante desde o trajeto de barco, caminhar dentro da gruta, o silêncio e o barulho dos remos a tocar na água. Definitivamente a não esquecer.

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Phong Nha – Vietnã

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Phong Nha – Vietnã

Em Phong Nha conheci o Max, um alemão a viajar sozinho, há já 5 semanas, pela Ásia. Andei com ele a conhecer a área, da maneira mais fácil e prática: moto. Tinha lido sobre um bar – ‘The pub with the cold beer’ – O bar com a cerveja fresca, localizado num cenário que lia-se ‘lindo’. Mas não tinha lido como era o trajecto até esse bar. Depois de subir, descer montes e andar por estradas cheias de lama, e quando digo lama, é lama daquela em que dá para enterrar os pés. Eu tive que sair da moto, para o Max conseguir andar com ela. Foi de rir até chegar ao bar, e ali estou eu com os pés cheios de lama, mas com um sorriso no olhar, pois sim, a paisagem é magnífica.

No Segundo dia em Phong Nha fui visitar a Dark Cave – gruta escura.

A Dark Cave e aconselhada para quem procura Aventura. São vários os trajectos antes de se chegar à atracção principal e à parte mais esperada. Para chegar à entrada da caverna temos que fazer zip-lining, depois nadar para entrar e caminhar até chegar mesmo à parte escura. Estava um frio de rachar e só tinha o biquíni, um colete salva-vidas e um capacete com uma luzinha para conseguir ver alguma coisa. Somos alertados para caminhar devagar pois o chão está cheio de lama. Basicamente, começamos a nadar em lama. Foi uma experiência bastante diferente e inédita. Foram 15 minutos a boiar, a rir, a tentar ficar com os pés no chão. Para sair da gruta, fomos de kayak.

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Dark Cave – Vietnã

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Para acabar o dia e a jornada em Phong Nha da melhor forma, a família vietnamita convidou os seus hóspedes para jantar com eles a comidinha caseira que eles tinham acabado de abençoar no seu ritual de reza de domingo. Jantamos todos juntos no chão, comida maravilhosa, e terminamos a noite em karaoke.

O próximo destino pedia mais uma viagem de sleeping bus. Foram 8 horas durante a noite até chegar a Hoi An. O Vietnã é conhecido pelas diferenças entre o Norte o Sul em termos de comida, paisagens, história, arquitetura e clima. Assim que cheguei a Hoi An, tive que remover os 3 casacos, a pashmina, as duas calças e sapatilhas que trazia vestido. Estava bastante calor, o que soube muito bem.

Hoi An

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Hoi An – Vietnã

Hoi An está excepcionalmente bem preservada. É uma cidade que combina características de arquitetura  vietnamitas, chinesas, japonesas e européias. Foi declarada patrimônio mundial em 1999.

Hoi An roubou o meu coração, aqui fiquei 6 dias. Divaguei pela parte velha da cidade. Passeei pelas ruas acolhedoras, decoradas com candeeiros coloridos estilo chinês, andei de bicicleta pelas margens do rio e campos de arroz, relaxei na praia que fica a 3 kms da cidade. Apreciei cada momento aqui, até tempo para fazer yoga tive, num estúdio mágico. Para além de fazer nada, tive também um dia didático, fui visitar as ruínas My Son. Um conjunto de templos Hindu abandonados. Estes templos eram dedicados a adorar o Deus Shiva. Estas ruínas podem fazer lembrar Angkor Wat no Cambodia, mas disseram-me que não tem nada a ver.

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Hoi An – Vietnã

Saigao

Como já tinha poucos dias de boa vida, continuei a minha jornada e segui para o último destino de avião.

Saigao (nome antigo), hoje conhecido como Ho Chi Minh city, em honra a Ho Chi Minh (aquele que ilumina), presidente doVietnã é um revolucionário adorado pelos vietnamitas. Saigao, como eu gosto mais de chamar, é a maior cidade e o principal centro financeiro do Vietnã. Localiza-se no Sul do país e é também o ponto de chegada ou partida de muitos mochileiros.

No meu caso, é o ponto de partida. Passei 3 dias em Saigao. Num desses dias fui com a Kahlee (menina da Austrália que conheci no hostel) visitar os túneis de Cu Chi, que remontam a altura da guerra. Como o nome indica, é um sistema de túneis no distrito de Cu Chi, que foram construídos durante a guerra pelos comunistas vietnamitas para viverem e se esconderem.

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Cu Chi – Vietnã

Foi um passeio assombroso e encantador ao mesmo tempo. Fiquei a conhecer um pouco mais sobre a história e a perceber que o ser humano é capaz de ter uma força física e psicológica impressionante.

Tendo ficado com este pensamento na cabeça, fomos (eu e o grupo da visita aos túneis) jantar a um restaurante, que me deixou ainda mais emocionada do que aquilo que eu já estava. Um restaurante onde se janta no escuro e se é servido por cegos. Não, não há luz nenhuma, inclusive os telemóveis, relógios tiveram que ficar num cacifo. A experiência foi respeitável, sublime e única! As emoções de estar a jantar sem saber o que, se estar a comunicar com pessoas que eu conheci 4 horas antes e estar a ser servida por cegos, foram mistas e não tem explicação.

Não posso acabar o relato da minha viagem sem mencionar o último dia.

Uma das coisas que mais li, quando me preparava para viajar, era ter cuidado com os roubos, não andar com o telemóvel, bolsa, câmara fotográfica na rua, pois era muito fácil sermos assaltados. Sim, é verdade, roubaram-me o meu telemóvel. E não é que passados 5 minutos, quando eu andava a procura da esquadra da polícia, aparecem ao pé de mim 2 polícias de moto, a pedirem para ir com eles a esquadra. Neste momento senti medo e desamparada. O meu voo era dali a 7 horas. Cheguei na esquadra e vejo o meu telemóvel. Fiquei com uma enorme vontade de abraçar todos os policiais que estavam ali comigo. Não acreditava que aquilo tinha acontecido, ter o telemóvel roubado e recuperado.

Depois de 2 horas a assinar papéis, preencher relatórios, me deixaram sair. Assim que pus os pés na rua, mais um sorriso de agradecimento na cara.

Esta viagem foi repleta de sorrisos destes.

Vietnã
Vietnã

Sorrisos em que olhamos para o céu e agradecemos.

Aqueles sorrisos em que sentes que o mundo está do teu lado e que foste iluminada. Pensas que alguém estava ali contigo e a traçar todo o teu trajeto, colocando pessoas maravilhosas no teu caminho, presenteando-te com experiências inesquecíveis, desenhando paisagens memoráveis que construíram esta viagem numa das melhores coisas que já vivi. Acredito que viajar sozinha tornou tudo ainda melhor, mais intenso.

Fui natural, fui eu mesma. O autoconhecimento, a adrenalina, a autoconfiança e a confiança no outro, a amizade e o amor próprio foram uma constante. Redescobri o que eu pensava  ter desaparecido em mim, mas não, sei que a Janine de mochila nas costas sozinha no Vietnã é a verdadeira Janine, porque ali não há barreiras ou alguém para impressionar.

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Vietnã

Quando hoje me perguntam como foi o Vietnã, o sorriso na cara volta e um orgulho enorme enche a minha resposta: foi muito bom, mas o Vietnam sozinha foi ainda melhor. Aconselho todas as mulheres tal como me aconselharam a mim – MANDEM-SE!

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