A experiência de viver na Alemanha

Você conhece uma pessoa determinada ? Então dobre essa determinação e estamos falando da Alyne, que é a nossa convidada dessa semana. Ela conta a sua história de como ela #Partiu do Brasil com 16 anos rumo a Alemanha, com toda a sua determinação e com a certeza do que queria, foi sem medo da língua sem medo do mundão, se jogou de cabeça e voltou para o Brasil ao finalizar seu intercâmbio. Mais tarde retornou para a terra do salsichão para realizar um estágio, anos depois decidiu que lá seria o seu mais novo lar!

Para quem acha os alemães rudes a Alyne prova que foi muito bem acolhida e só ganhou com essa rigidez cultural.

Por: Alyne Tofoli

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Cada um tem sua trajetória única, cada um faz suas escolhas, não há melhor ou pior, mas sim olhar para trás e ver que realmente valeu a pena. Entre tantos caminhos, você escolhe aquele que de início parece ser o mais animal e depois descobre ser o mais árduo.

Sim, sim, a maioria das pessoas sempre acreditam que morar fora é chique, moderno, bacana e diferente. Até concordo que em alguma pequena parte deva ser, mas as pessoas se esquecem das palavras saudades e solidão, sem falar na quantidade gigantesca de perrengues.  

No meu primeiro intercâmbio, com 16 anos, pude saber bem o que era isto. Ao aprender a língua, ou melhor, ao não compreender o que as pessoas dizem, o primeiro sentimento é solidão, é tristeza. Você até percebe que a escolha foi sua de estar ali, mais logo a frente vai valer a pena, mas passar pelo sentimento, que provavelmente será temporário sem querer voltar atrás é desgastante. Mas aí surge um novo amigo, uma nova distração, talvez um hobby ou algum novo desafio, e não nos sentimos mais solitários. Se hoje me perguntassem entre solidão e saudades o que é pior, eu responderia: a primeira e eu vou explicar logo mais por quê.

Aos quinze anos, todas as garotas da minha escola pediam aos pais uma festa de debutante como presente. Hoje paro e penso, o quão chocado meu pai deve ter ficado ao receber a minha resposta de que a garotinha dele queria morar fora. Mas nada de Estados Unidos ou Canadá, mas sim Alemanha. Na minha família, morar fora, principalmente naquela época, era quase fora do normal. Se pegarmos o meu círculo de amizades, não conhecia nenhum colega. A pessoa mais próxima era um primo de segundo grau, por ventura irmão da criadora deste blog.

Um tanto corajosos foram meus pais, como sonhadora eu fui. Com 16 anos e uma situação financeira familiar não das melhores, realizei o meu primeiro intercâmbio: morei por dois meses no norte da Alemanha, próximo à Hannover. Região onde o salsichão não é tão forte e dialetos são anormais – lá se falava o Hochdeutsch – uma espécie de alemão formal, porque não se dizer clássico.

Morei com uma família que possuíam três filhas, sendo a mais nova próxima a minha idade, a qual posteriormente morou um mês com minha família no Brasil, mas esta parte da história exige um capítulo a parte (deixa para lá). Peguei um inverno forte, com bastante neve e temperaturas abaixo de zero na maior parte do tempo, dia clareando as 8:30 e escurecendo às 16:30. Eu totalmente despreparada aprendi a minha primeira lição: tenha menos roupas, porém mais fortes e mais robustas. Aqui tanto faz se você usa a mesma jaqueta todo o inverno, a diferença está em estar protegida e preparada para todas as aventuras que este período te reserva. Foi um período em que aproveitei ao máximo tudo o que pude, não só de comer neve e congelar os dentes, como também engordar 10 kilos neste período pequeno devido aos chocolates e às comidas gordurosas que não hesitei em aceitar.

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Voltei ao Brasil com ainda mais vontade de vivenciar a vida aqui. Óbvio que o fato de estudar (no Brasil) em uma escola alemã mantinha sempre a chama acessa e sempre querendo mais. Ao entrar na faculdade de engenharia mecânica, já comecei a juntar dinheiro dando aulas de alemão para iniciantes e comecei a fazer parte de todos os projetos com a Alemanha. Em dois anos e meio consegui uma bolsa de estudos do estado austríaco para estudar Engenharia de Equipamentos no sul deste pequeno país.

A cidade se chamava Villach e era extremamente bucólica. O centro possuía uma rua principal, porém a localização, apesar da minha condição estudantil – leia-se dura – era excelente, na fronteira com a Itália e com a Eslovênia. A bolsa exigia uma quantidade de horas cursadas e também trabalhadas em um projeto estudantil: o Human Walking Machine.

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O trabalho em uma equipe multicultural, afinal eram dois italianos, dois austríacos e uma brasileira, tratava-se em desenvolver um robô de um metro de altura, que ao colocado em um campo de futebol, era capaz de reconhecer a bola, caminhar até ela, chutar e marcar um gol. Hoje vejo como a minha primeira experiência multicultural me exigiu paciência e perseverança para prosseguir ate o final, pois o líder italiano do projeto, por não se dizer chefe, era extremamente arredio, assim como a população local.

O sul da Áustria é conhecido por ser um estado marrom, a cor simboliza um certo patriotismo e preconceito contra outras raças. Era possível notar nos restaurantes ou mesmo em bares o desgosto das pessoas ao notarem a chegada dos intercambistas. Não somente por isto a região é conhecida, mas também pela beleza natural inigualável e os campeonatos de salto de esqui, uma das experiências mais fantásticas que tive na época.

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Diretamente de Villach fui parar em Regensburg, cidade linda e antiga, a 100km de Munique, na Alemanha. Até então o melhor intercâmbio que eu havia feito. Lá estudei realmente na minha área, ou seja, fiz engenharia mecânica. Matérias como termodinâmica, transmissão de calor foram alguns dos meus maiores desafios. Aulas em auditórios com mais de 100 pessoas, em suma maioria homens. Posteriormente, consegui convalidar os cursos feitos na Faculdade de Ciências Aplicadas de Regensburg na minha faculdade, UNESP. Paralelamente, a bolsa de estudos exigia 20 horas semanais trabalhadas no laboratório de termodinâmica e motores. E posso afirmar, que experiência. Lá pude trabalhar com motores desconhecidos no Brasil, como Stirling, com células fotovoltaicas – o que na época mal se falava no nosso país – e por último, com normas alemãs para óleos de motores. Este tema pude explorar bastante e foi com o que eu mais trabalhei, uma vez que meu supervisor compunha a Associação de Normas Alemãs, as famosas DIN.

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Meu período em Regensburg foi ótimo, mesmo morando num apartamento de pouco mais de 20m². Lá conheci o verdadeiro sentimento de morar na Alemanha, de me sentir parte de um todo, de receber a exigência alemã quanto à cumprir os horários, o prometido e apresentar resultados. Aprendi a dar valor para todas as estações do ano e a viver com pouco dinheiro. Não consegui fazer muitas viagens, mas as experiências que tive foram impagáveis. Meus seis meses de intercâmbio no estado de Bayern, com certeza conquistaram meu coração.

Ao voltar ao Brasil, me formei e como as coisas às vezes não acontecem por acaso, comecei a trabalhar em uma empresa alemã, onde conheci meu marido e logo depois, fui trabalhar na Bosch. O trabalho diário em projetos multinacionais e a proximidade da cultura me deram mais uma certeza: eu quero voltar!

Na próxima sexta-feira 12/08/2016 completo 6 meses morando e trabalhando para a Bosch no sul da terra da batata e do salsichão, mais precisamente em Ludwigsburg, próximo à Stuttgart no estado de Baden-Württemberg. Cidade linda, turística de 3 castelos, onde faço tudo a pé, de ônibus ou de bicicleta. Onde saio para correr nas ruelas entre os campos e plantações, onde qualquer pessoa passa ao seu lado e te cumprimenta. Onde separar o lixo é mais que um dever, é um prazer e pensar no nosso futuro é algo contínuo e extremamente presente. Onde alimentos orgânicos e da fazenda ao lado possuem muito mais valor – e não digo monetário – porque simplesmente se conhece o dono ou mesmo por ter mais sabor e menor influência humana.IMG_abc

 

Ao contrário do que se possa pensar, eu não fui expatriada, mas sim consegui a vaga aqui através de processo seletivo normal. Tive que me desligar da empresa no Brasil, para me ligar à Robert Bosch. Processo seletivo em alemão, mudança sem auxílio ou mesmo orientação, foi tudo na raça mesmo. Aqui eu aprendi a fazer tudo ainda mais sozinha e nunca me deixar abater por receber um não.

Aprendi que um sorriso no rosto abre mil portas. Afirmo isto sendo a única mulher no departamento de testes de durabilidade para componentes de sistemas a gasolina. Trabalho com doutores e mecânicos todos os dias, sempre em alemão! Aqui aprendi que a delicadeza de ser mulher e a forma abrangente de enxergarmos o problema abre milhões de portas. Fui muito bem acolhida no meu trabalho e torço para que continue assim. Aqui encontrei um pouco da qualidade de vida que eu buscava para mim e para o meu marido. Não é fácil, saiba de início um intercâmbio nunca é fácil!

Ao final, se aprende que a saudades até certo ponto é saudável, faz bem, nos faz dá valor a quem a gente ama e principalmente, a cada detalhe, a cada gesto e a cada minuto ao lado de quem gostamos. Faz com que os problemas de outrora virem pequenos ou até mesmo invisíveis. Sei que abandonar a zona de conforto estando casada ou mesmo com filhos é difícil, mas digo a qualquer um que me perguntar: vale a pena, e quanto! Com qualquer idade, com qualquer situação, vá! Obrigada pai e mãe por ter plantado tão cedo a sementinha em mim! Agradeço ainda ao meu companheiro por estar aqui e ter escolhido vivenciar tudo isto comigo! E à você leitor, digo: vá buscar novos desafios e se apaixonar por um novo eu!

 

5 comments

  1. Amei, amei esse post e cada detalhe dele.. Obrigada por compartilhar sua historia de tanta determinação e amor em tudo que faz Ly… Você me inspira muito!

  2. Que demais Lynoca =) É isso mesmo amiga! Eu, assim como você, fiz a minha escolha e sei o quao árduo é o caminho num território desconhecido, sem idioma, poucos amigos…mas nós somos porretas e vamos atrás dos nossos sonhos.

  3. Que orgulho dessa minha amiga!!! Saiba que em cada desafio que vc enfrenta, pode contar com nossas orações e nosso empurrão para que você vá sempre longe! A saudades é daqui também… de você, da sua risada e das nossas conversas nos banquinhos da empresa na hora do almoço! Ano que vem vamos te visitar!! Nos aguarde!!! Vitinho vai pra terra da batata! Pior que ele vai ser o menos “turista” entre nós, meu batatudinho hahahah

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